terça-feira, maio 02, 2006

Curtas (2) - O Farol

O calor suave de um raio de sol inundando-me a pele, forçou-me hoje o despertar. Intrigado e surpreso, pois o vendaval da noite anterior em nada fazia prever um amanhecer assim, levantei-me e fui até à janela abrindo as cortinas de par em par.
Foi quando vislumbrei, um céu lindo, limpo, de um azul vivo, que no horizonte se confundia com a linha do mar.
Abrindo a janela, Inspirei fundo e pude sentir o delicioso cheiro da maresia que invadia o ar com o seu odor característico, forte e simultaneamente fresco.
Apurando o ouvido, pude ouvir as ondas a afagarem a praia e as gaivotas ao longe, numa sinfonia única, uníssona entoando uma perfeita melodia sem pauta.

E então senti…
Senti a paz do momento, perfeito, único.

Por momentos, esqueci quem sou, pois isso perde toda a importância mediante um cenário como este.
Por momentos, senti-me parte do que via, senti o meu odor misturado com o da maresia, a minha voz a entoar o mesmo cântico das gaivotas e senti-me elevar.

Elevei-me para junto delas e de lá, pude observar num plano superior, abrangente, tudo o que me rodeava, inclusive a mim próprio.

E foi então que vi!
E foi então que me vi!

E vi-me ali, na janela daquele farol, isolado no meio do azul e não me reconheci.
Estava com um aspecto cansado, maltratado pelo tempo, e a minha pele… tinha pelo menos mais 10 anos do que me lembrava.
O que terá acontecido? O que se terá passado comigo para estar naquele estado?

Será que de facto, de facto eu não o sabia?
Penso que sim. Sabia-o e bem!
Só não me havia ainda apercebido que as marcas tinham sido tão profundas, tão… marcantes!
E foi então que me veio aquele sentimento, aquela nostalgia, aquela… saudade.

Tu partiras não havia muito tempo, com aquele teu ímpeto que te é tão característico.

Desde então, fiquei perdido à procura de me encontrar como me tinhas encontrado anos antes. Tolo. Já devia saber que isso era impossível.
Como não o consegui, nem tão pouco habituar-me à ideia de já não te ter por perto, continuei a procurar-te a ti.
Á noite, no lugar da cama que ficou vazio.
De dia, no teu lugar à mesa, que eu, num gesto mecânico, continuava a colocar e para o qual ficava por vezes, durante longos minutos a olhar, até que sentia aquele frio húmido de uma lágrima, e então…

Até hoje, não sei o que se passou connosco para que tenhamos chegado aqui. O que se passou, ou o que deixamos que não se passasse para ser possível… isto!

Mas a verdade é esta, e eu, por muita vontade que tenha, não tenho capacidade para a mudar.

Continuo aqui à tua espera.
Não saio com medo que possas voltar e não me encontrar.
Não saio com medo que eu possa voltar a não me encontrar.

1 comentário:

Putty Cat disse...

Às vezes perdemos mais em ficar à espera do que se saíssemos do nosso "casulo".
Quem sabe, se esse alguém não vai estar a cruzar uma de tantas milhares de esquinas ao mesmo tempo que tu.
Quem sabe se não te "esbarras" com esse alguém, numa rua qualquer.
Quem sabe...
Improvavel?
Se as probabilidades existem é porque têm algum sentido...
Haja audácia e coragem para o fazer.

PCat