terça-feira, janeiro 09, 2007

Curtas (5) - Mini

Há muitas coisas que eu gostaria de saber hoje sobre ti.

Por diversas vezes, dou comigo a pensar por onde andarás, o que estarás a fazer neste momento, se manténs o mesmo emprego, se continuas a viver com os teus pais, se ainda tens aquele mini velhinho, amarelo, pequenino e tão divertido. De cada vez que saíamos era uma aventura, nunca sabíamos até onde conseguiríamos chegar e isso, tornou-se o objectivo em si, de tantas e tantas vezes que ficamos pelo caminho.

Por vezes, muitas vezes, passamos as noites no meio de nenhures, junto ao carro à espera do auxílio sempre precioso do teu pai, que acordado sobressaltado a meio da noite, lá vinha ao nosso encontro para nos desenrascar uma vez mais. “Mas porque é que continuas a insistir em sair com este? Porque não levas o meu?” E ele nunca soube a resposta a esta pergunta. A verdadeira resposta que cada um de nós guardava dentro si, como um segredo nosso, nunca revelado sequer entre nós, mas que ambos sabíamos ser o verdadeiro motivo pelo qual teimávamos em utilizar aquele carro, ao invés do do teu pai, mais confortável, com melhor sistema de música, com aquecimento, etc. É que no fundo, no fundo o que verdadeiramente interessava, desde há muito que deixara de ser o sítio para onde íamos, ou o que íamos fazer. O que verdadeiramente interessava e nos levava a noite após noite, sair com aquele velho mini, era o facto de ficarmos parados, “encravados” no meio do nada, sem nada para nos distrairmos, fazer ou sequer nos tentar e então… então com a música de fundo a arranhar naquele também velho rádio, dávamos largas à nossa mente e às nossas línguas e, invariavelmente, noite fora, sentados dentro daquele pequeno carro, aninhados sobre nós próprios para combater o frio, dissertávamos sobre todas as coisas, horas a fio.

Naquelas horas, cada um de nós, despia a alma e o espírito e vivíamos apenas para aquelas conversas, que sempre tanto nos aproximavam e nos levavam aos locais mais recônditos do espírito. Falávamos, falávamos, riamos, esconjurávamos os outros, a sociedade, a vida, mas nós… nós éramos cada vez mais nós, mais amigos, mais unidos, mais irmãos.

Em ti, tive o irmão que o meu próprio irmão nunca foi. Contigo, vivi as aventuras que hoje conto aos outros como as minhas melhores memórias da adolescência. E hoje… estamos tão separados!

A vida é um lugar estranho que aproxima e afasta as pessoas com a naturalidade que só ela sabe impregnar às situações, fazendo com que, cada um de nós não se aperceba sequer desse afastamento tão subtil como gradual e quando nos damos conta… já passaram dias, meses e às vezes até anos, sem que nos tenhamos encontrado ou sequer falado.

Penso em ti muitas vezes, há muitas coisas que eu gostaria de saber sobre ti.

Muitas vezes te procuro, por e-mail, sms, telefonema, mas são mais as vezes que por estares demasiado ocupado, não atendes e/ou não respondes. Noutro dia, na passagem de ano, enviaste-me uma sms em que desejavas um bom ano e dizias que contigo estava tudo bem.

Por agora, saber apenas que estás bem, basta-me!

Mas depois… depois vou querer saber se ainda guardas aquele velho mini e se estás disposto a, numa noite destas, sair novamente, comigo, nele.

5 comentários:

Putty Cat disse...

Todos nós, na nossa vida já tivemos pelo menos, 1 amizade que nos marcou.
E hoje, por mais afastados e incontactáveis, ela permanece no nosso baú de recordações.
Eu tive uma amiga desse género, na designada "idade da estupidez". Eramos inseparáveis, e nunca pensei que um dia chegariamos a ser novamente estranhas como somos agora. Se for preciso passas por mim e nem me conheces.
E foi um daqueles fins de amizade que não têm explicação. Não nos chateamos, apenas seguimos rumos diferentes. Ela foi para Artes e eu para Economia. A nossa amizade passou de pacto inquebrável a esquesita, de esquesita a indiferente, de indeferente a esquecida.
E hoje ainda guardo com muito carinho todos os momentos alucinantes que vivemos e por onde todos passamos nos nossos 15/16 anos.
E ainda guardo as histórias em inglês que escreviamos sem parar e que viviamos como se fossemos nós mesmas a vivê-las.
No fundo era o nosso desejo de então.
E hoje perguntou-me onde andará ela...
Este teu post, Brain, fez-me reviver esses momentos.

Agradeço-te por isso!

Beijo grande.

Brain's Wife disse...

Todos temos uma história semelhante...
Quem sabe se um dia, não reencontramos esse amigo, e pomos a conversa em dia...

Curta fantástica!!!!
Beijos para ti
Meu Brain

Andarilhus disse...

Nunca é tarde para recuperarmos as memórias mais queridas. E melhor do que recuperá-las é revivê-las!
Brain, não desistas de resgatar essa amizade às vicissitudes do tempo e a algum esquecimento, mesmo que o feedback seja tão ténue.
Como te disse uma vez, as amizades não se perdem, as pessoas é que se afastam... mas podem reencontrar-se!
Levantaste uma "luta" muito nobre; sê implacável na conquista...
Abraço
"(ªoª)"

PP disse...

A primeira canção com lágrimas

Meu amigo morreu. Meu amigo partiu
Na madrugada fria, fria meu amigo (dizem)
agora habita a verde catedral de um bosque
Meu amigo morreu. Meu amigo não volta

Meu amigo dizia (estou a ouvi-lo)
vou procurar minha estrela. Foi
e não voltou. Meu amigo (dizem)
tem agora o tamanho de uma estrela.

Meu amigo não volta. Eu estou mais velho é certo.
Amigo é uma palavra com aldeias dentro
com lâmpadas sinais do amigo
para dizer-nos: estou aqui.

Eu estou mais velho é certo. Meu amigo morreu.
Amigo é uma palavra agora com aldeias tristes
estas paragens percorridas pela ausência
sem lâmpadas (com lágrimas com lágrimas)

Meu amigo partiu para o espaço da noite
e há uma viola dentro da tristeza
neste verde lugar onde a noiva anoitece.
Nunca mais voltará. (Porque morreu?)

Manuel Alegre - Praça da canção

...inúteis mais comentários...

divina disse...

Bom dia,

Hoje fui abordada com este tema por uma amiga, e na verdade situações como estas são comuns a todos nós. Há amizades que gostaria de reencontrar, mas outras,não sei bem porque, tenho o pressentimento que as evito, talvez porque o nunca cheguei a atender o porquê do afastamento....
É muito bom reviver certas alturas.

beijinhos