segunda-feira, maio 12, 2008

Curtas 14 – Naqueles dias de Inverno


Dentro do carro, aguardava com expectativa o momento em que ao fundo da rua vislumbraria a tua silhueta.
Nos dias daquele inverno em que ia almoçar contigo, era assim que aguardava a tua chegada.

E tu lá aparecias. Ao longe. E caminhavas em direcção ao meu carro. De cara levantada a exigir o respeito da vida por ti, fechada como o casaco que sempre trazias abotoado como o tempo e de passo certo, para não revelar o inseguro de um passo a anteceder o outro.
Ao aproximares-te, arqueavas um sorriso discreto, quase dissimulado e dirigias-te para a porta direita.
Já dentro do carro, um “Olá!” por entre a abertura de um sorriso nos teus lábios finos e bem delineados que sempre te caracterizaram.

Arrancando, podia observar o teu olhar, ainda meio vago, os pensamentos ainda metade fora, metade dentro do carro e o respirar circunstancial e automático como alimento à sobrevivência do corpo. À medida que o carro ia circulando, também os teus pensamentos se iam recolhendo todos àquele espaço, a cada gota de chuva que lá fora batia de encontro ao vidro e o nós começava a ganhar corpo e a tomar a sua conhecida forma.

Então, a minha mão procurava a tua e ao encontro das duas, o respirar assumia um outro papel e o teu olhar ainda meio vago, já deixava transparecer o quase confinar da tua existência a apenas aquele lugar móvel, em que ambos existíamos e que por algum tempo (pouco, sempre tão pouco) seria um espaço apenas nosso.

Por vezes, seguíamos em silêncio, ouvindo o ritmo das gotas da chuva embebido na música que do rádio soava e sentida em cada carícia que os dedos entrelaçados cantavam uns para ou outros; outras vezes, falávamos de assuntos circunstanciais, daqueles, em que cada palavra não quer dizer o que as letras a fazem, nem as frases terminam nos pontos finais, pois o que se proferia não era minimamente condicente com o que se estava de facto a “dizer”.

Chegados ao local, mudávamo-nos para o banco de trás, no qual os meus braços podiam melhor albergar o teu olhar, as minhas mãos afagar-te os sentires e os meus lábios, beber as tuas palavras.
Num instante, comíamos a nossa “refeição” – duas sandes compradas em qualquer lado, justificativas do adjectivo de almoço para o nosso encontro – para depois… depois usufruirmos do nosso verdadeiro alimento, os olhares de um no outro, o respirar de um no outro, o calor de um para com o outro.

E eram momentos únicos, aqueles que vivíamos ali, naquele espaço confinado a nós, com a música de fundo a fazer-nos companhia e com o tudo que as carícias de pele produziam no sentir de cada um.

E o tempo não passava… o tempo não existia… o tempo… era uma contagem decrescente, sempre galopante, sempre castradora do querer, que dizia que aquele tempo, aquele espaço de tempo, não deveria ser tão imensamente finito, tão imensamente pouco, tão… por nós medido a cada pulsar.

E a chuva lá fora deixava de existir, o vento deixava de se fazer sentir e o frio… era um estado de espírito em forma líquida que como que jorrando de uma chávena de café quente, nos aquecia o corpo.
Nós permanecíamos no carro, mas o nosso espírito, os nossos sentidos, os nossos sentires, estavam muito acima das nuvens, lá, onde os raios de sol nunca deixam de se fazer sentir e a luz demonstra a vida que encerramos em nós, essa mesma que muitas das vezes, sequer, disso nos permitamos aperceber.

E eu sorria. Eu sempre sorria. E o tempo passava. E o tempo terminava.

E eu adorava observar-te sempre em todos os momentos.

No caminho de retorno, tu fazias o percurso inverso. Ias gradualmente transportando-te para a realidade do mundo fora daquele carro, com o olhar vago distante, com os teus dedos (da mão que não estava entrelaçada na minha) seguravas uma ponta do teu cabelo fazendo círculos no ar e mantinhas um sorriso fino, nos teus lábios finos, enquanto o pulsar lentamente se tornava mais lento, para se sincronizar com o do tempo do relógio, que a fatalidade do mundo real nos trás.

Naquele percurso, nos instantes em que ele durava, tu ias descendo de encontro à chuva, ias descendo de encontro ao frio, de encontro à realidade que nos separava, mas… já fora do carro e vendo-te caminhar de encontro à tua tarde, eu conseguia claramente ver, que apesar de não teres nada para te proteger… a chuva não te molhava, o escuro não te encobria, porque tu… tu seguias circundada por uma luz interior, um calor em ti, que não permitia que fosses perturbada pelos indesejos mundanos e eu… eu que no carro ficava a ver-te seguir… eu só desejava, que aquela luz que de ti irradiava, durasse pelo menos… até ao nosso próximo encontro.

26 comentários:

as velas ardem ate ao fim disse...

Fico à espera de momentos como este.

um bjo

Peach disse...

ai que invejaaaa do que escreves lollll

bora fazer um post a meias? como só nós sabemos? ;)

beijossss

mariazinha disse...

que lindo!
:)

(conta mais...)

beijos**

Raquel Branco disse...

E são assim, momentos como estes, que permitem a quebra dos contra-relógios, dos contra-regras, dos contra-emoções.

Delicioso momento de leitura.
Excelente música de acompanhamento.

Beijo meu.

Som do Silêncio disse...

Olá Brain

Gostei muito de ler este teu texto.
A descrição perfeita do um momento único.
Uma vez já te disse...e volto a dizer...quando for grande, gostava de escrever assim :)

Beijo terno

MirMorena disse...

Nossaaaa....estou sem palavras...tudo tão perfeito, tudo tão sentido...

Bjusss de carinho

Lazy Cat disse...

porque de cada pedra em pedra se constroi a ponte que une vidas, assim de dia em dia se constroi a ponte entre ti...e mim!

Oh dear!

Não sabes o bem que me fez a tua ultima frase.

Sabes o bom que é ler-te sempre, mas esta ultima frase trouxe-me à Terra, aos tão pequenos detalhes que fazem as vidas grandes!

Obrigada

Trapezista disse...

Lindas... as tuas carícias, de um tempo que transborda do peito, se entrelaça no olhar... e ilumina uma vida inteira !

Vou permanecer por mais uns instantes, fechar os olhos... e sentir... simplesmente sentir...

Beijinho meu*

Azul disse...

Dear Brain,

É impossível ficar indiferente a estas palavras que descrevem momentos, que são mais, seguramente, do que momentos únicos para quem os vive. E tenho para mim que "essa Luz" não pode irradiar apenas até ao próximo encontro. Irradia sempre. Sempre em todos os momentos, em todos os instantes que se repetem e que se recordam.

Mais palavras para quê?! És tu. E os teus escritos.

Beijo
Azul

Peach disse...

Começas tu primeiro :)
primeiro as palavras.... depois vem o resto!

beijo

impulsos disse...

Este texto está simplesmente maravilhoso.
Também poderia ter sido eu a escrevê-lo...
Claro que não ficaria tão belo, até porque, não eras tu nem era eu, nesta história.

São momentos únicos, que sabem a pouco naquela hora...

Beijo

Baraújo disse...

estórias. um dia historias... tao bem contadas...

tou FÃ das tuas curtas desde as ultimas...
já o era a muito da forma como escreves...

akele abraço

Branca disse...

Lindo!
A tua descrição até arrepia, consegue-se sentir cada instante, cada suspiro, cada bater do coração...

Simplesmente belíssimo!

Beijinhos e bom fim-de-semana para ti e toda a tua família :)

Cláudia disse...

Absolutamente lindo. Achei a conjugação com a música perfeita. Parece que a música nos conta exactamente a mesma história que tu, mas sem precisar de usar palavras.

Adorei.
Beijinhos e bom fim de semana. ***

NARNIA disse...

Brain
Aqui quietinha lendo e absorvendo. As palavras e a musica entranham-se, um momento perfeito.

Divinius disse...

Já vim aqui algumas vezes,sempre bom voltar.
Post muito bom.

LNeves disse...

boas lembranças :))))

***MUAH***

Sha disse...

Dias de Inverno... que aquecem como noites de Verão.

Beijo.
Sha

**** disse...

Vim deixar um beijo e desejar boa semana!
****

ivone disse...

encontros marcados
desencontros encontrados
por aí em quaquer lugar

Walter disse...

Brain...se outras vezes me senti enredado naquilo que leio e que sinto quando te leio, desta vez sinto que te superaste, ou talvez tenha sido eu que me enredei ainda mais, porque o que escreves é simplesmente SUBLIME
abraço
walter

nuvem disse...

Gostei de te ler neste registo. Belíssimo texto, de sentidos profundos.

Beijos

Jose disse...

Meu caro amigo, mais um texto que desmontra a pessoa sensivel que és.

Um abraço com cerveja em divída.


José

Carol Barcellos disse...

Brain, que injustiça sintonizar música e texto tão perfeitos!!!
Estou com lágrimas nos olhos, e um nó na garganta, pq sei o que é sentir tudo isso, sei exatamente como é ter o tempo, por um momento, nas nossas mãos, infinito...e ainda achar pouco...
É, realmente, vc me deixou sem condições psicológicas de comentar mais, primeiro tenho que secar minhas lágrimas...

Beijos doces cristalizados!!! :o*

Ás de Copas disse...

... fico em silêncio absorvendo o momento, mas não revelando em que lado do carro me senti e me sentei enquanto te lia...

Um beijo de Copas agradecendo as palavras que me ofereces nas visitas assíduas ao meu baralho de letras.

:)

Peach disse...

OLHA QUE MUDEI DE MAIL, OK?

KISS