quarta-feira, julho 08, 2009

Curtas 22 – “Aquele nosso mundo”


Meti pela última vez a chave na porta daquele que era o nosso mundo. E naquele momento houve algo que mudou em mim.
Como se sentisse a chave entrar de uma forma diferente;
Como se o barulho que a mesma fazia na sua progressão tivesse outro tom;
Como se a fechadura fosse mais larga;
Como se oferecesse menos resistência;
Como se uma camada de ar revestisse a chave e a auxiliasse no seu caminho por entre os pinos da fechadura que pareciam não se quererem contrapor aos dentes da chave;
Como se houvessem menos obstáculos ao acto em si;
Como se a mão que empunhava a chave não fosse mais a mesma, ou o corpo que a suportava não tivesse mais os mesmos sentires…

Meti pela última vez a chave na porta daquele que era o nosso mundo, e entrei no lugar que não era mais teu. Estava vazio de ti. Levastes-te para sempre dali, arrancando-te de mim à força como um vendaval que passa e arrasta consigo os haveres. Os teus haveres. Todos os teus haveres que levaste contigo, deixando no lugar deles o silêncio dos espaços vazios. O vazio dos espaços em silêncio.

Aquele nosso mundo que agora não era mais teu, era o lugar onde o silêncio se havia perdido e estava espalhado e derramado e impregnado por toda a casa. Não havia ruídos de ti. Não havia mais do que as memórias dos ruídos de nós. Não se faziam ecoar nas paredes mais do que os meus gritos mudos, que em segredo lançava para dentro de mim e me arrancavam as minhas certezas mesmo das minhas mais recônditas profundezas.

Aquele nosso mundo não era mais teu.
E aquela casa era eu.
Vazia de ti.

E lentamente sucumbi…
…para dentro de mim…
…ao sabor da minha implosão.

15 comentários:

Menina do Rio disse...

Sei bem o que é esse vazio...

Beijo

nuvem disse...

Obrigada por nos deixares uma janela aberta para as tuas palavras...

Beijos

Donagata disse...

Eu não sei comentar com a sensibilidade com que escreves. Por isso, talvez devesse evitar fazê-lo...

Contudo, não posso deixar de me congratular sempre que leio palavras que são muito mais do que isso; que são sentires, que são gritos, choros, ilusões, desilusões... Enfim, que são vida.

Um beijo bem lambido!

pin gente disse...

tive que partir!
senti-me só,
abandonada num mundo onde não estavas,
num nós que não o era,
num passado esquecido...
por isso parti!
esperei demasiado tempo,
não chegaste,
a porta não se abriu pelo lado de fora...
é tão tarde!
o silêncio é tanto!
a luz escasseia nas frestas onde outrora via raios de sol!
a chama da lareira esgotou-se,
terminaram os toros,
a minha carne arrefeceu...
.
por isso, tive que partir em busca de calor!


um beijo, brain
luísa

as velas ardem ate ao fim disse...

o vazio...doi tanto.

um bjo

Rui Fernandes disse...

Maravilhoso! Tudo o que escreve é fantástico.
Todos nós vamos tendo vários vazios ao longo da vida, uns graves outros nem tanto.
há medida que vamos crescendo esses vazios sentimentalistas vão conquistando maior território do nosso corpo e para sarar essas feridas irá ser necessário mais tempo. Enfim! É a vida!

Abraço amigo,
Rui Fernandes

Peregrina disse...

às vezes faz falta, sucumbir para dentro de nós. tenho a certeza que encontrarás coisas belas a que te podes agarrar para suplantar esse vazio :)

Beijinho*

Ai e Tal... disse...

Saudades de te ler!!!

***MUAH***

Papoila disse...

Há momentos nos lugares vazios e neste teu momento eu revi muitos sentimentos que me trespassam o ser.

Um beijo
BF

Smsn - artes e ideias disse...

gostei!!!

bj
smsnartes

Patrícia Mota disse...

Um vazio não é simplesmente uma forma de nos voltarmos a preencher? Aproveita cada vazio da tua vida, cada dia cinzento, pois são eles que te permitem recomeçar.

Beijinhos

... a cada instante ... disse...

Lembra-te que: A mão que fecha a porta é também a mão que a abre...
Cada coração tem a sua fechadura, cada fechadura tem a sua chave, cada chave tem o seu dono e cada dono tem um coração...
Aproveita cada instante que a vida te oferece para crescer, aprender e, principalmente, renascer...
Abraço.

anabloom disse...

O inquieto e ansioso vazio... Olhar o vazio repleto de paz, da tranquilidade que não havia... e deixar-se ficar!

Susn F. disse...

Um texto com pormenores que ficarão eternizados na memória, essa morada que tanto nos diz.

Beijinhos

Walter disse...

Comentar-te é sempre dificil porque creio que as minhas palavras não se assemelham ao que transpões para as tuas. Mas é simplesmente sublime.
Aquele abraço


Walter
PS: depois de um "bloqueio" voltei