sábado, dezembro 31, 2016

METÁFORA

E eis que termina. Apagam-se as luzes. O pano baixa. E atrás dele vês o público ir. Um a um. Lentamente todos seguem em direção à saída. Oposta a ti. Deixam-te só. Atrás do pano. Mas ainda assim, no palco. Onde não és nada depois do aplauso. Vazio após clímax. Final de jornada. Em rotina.

Continuas a ser tu. Falas ainda decoradas. Arte ainda em rubro. Mas inúteis após o final. Agora nada mais és para além de ti. Despido de função és apenas tu. Ilha. Solo de piano. Ser em evidência. Num momento o centro de todas as atenções, no seguinte sem ninguém que te olhe. Que te fale. Te veja como és. A ti, não a uma personagem. Te acarinhe como precisas. A ti, não a uma personagem.

Atrás do pano, a sós contigo mesmo, encontras-te sem que te procures. Vês-te sem que te olhes. Sentes-te sem que te toques. E no cruzar de ti, do que és com o que fazes, apenas um calor:

O saber que depois de cada final, há um novo (re)começo!

1 comentário:

Lília Tavares disse...

Olá, Carlos!
Não vou nunca esquecer que tornei este texto na cortina de fecho de um ano/ começo de um outro.
Gostei de te (re)ler aqui.
Beijo.
LT