quinta-feira, agosto 03, 2006

Estavas Sentado...

Para partilhar, especialmente contigo: Papoila.

Estavas sentado e havia uma paisagem agreste
nos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva,
os espinheiros agitados com a erosão das dunas,
um mar picado, capaz de todos os naufrágios.

O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa -
era a força do vento contra o corpo do navio; uma
miragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia;
a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira
dos deuses com o mundo. Quando te levantaste,

disseste qualquer coisa muito breve que me feriu
de morte como a lâmina de um punhal acabado
de comprar. (Se trovejasse, podia ser um raio
a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.)

Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas -
de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos
que as ondas espalham de madrugada pelas praias.


(Maria do Rosário Pedreira)

12 comentários:

Andarilhus disse...

...Muito bonito... e escrito como eu gosto: palavras com imagens e letras com desenhos.

Permitam um pequeno contributo para o tema...

"Despertar

Nunca foi tão breve uma vã rendição.
Nunca a palavra se encontrou tão solitária
E jamais o silêncio se ergueu tão dominante,
Arrebatando, afogando tamanha paixão
Nas lágrimas quentes da alma perdulária,
Indefesa, jazendo nesse fatal instante...

A esperança galopara ávida e veloz
A encosta de acesso ao abismo.
A queda imprevista estava, no entanto, anunciada,
Forjada que fora pela vontade feroz,
Que por inquieta e adversa ao comodismo
Aliou-se à precipitação até à entrega desesperada.

Sangraram os lábios que declararam
O desejo do coração, em brechas ferido,
Perdeu-se o pensamento na apertada confusão
Existencial, que quatro paredes delimitaram.
O destino, sabedor, de maldoso já havia sorrido
E deus, há muito alheado, não enviou a sua benção!

Anseios suscitados pelo sonho puro,
De um mundo perfeito em tons de branco e dourado.
Peito aberto como uma folha de poema,
Cuja mensagem encontrou a resistência de um muro
De indiferença, friamente erguido e consagrado
Á negação de um sentimento que tinha o amor por lema...

J. Pópulo
MCMXCIV"

Outros tempos, as mesmas alegrias e as mesmas tristezas... "(º0º)"

papoila disse...

Nunca sei o que dizer nestas alturas.

Sei tb que não tenho que responder.

Gostei. e gostei tb do teu, andarilhus...

Quando nos despimos, custa recuperar da não obtenção de um retorno.
Vale-me o saber que me consegui despir como nunca anteriormente.

Gostei!

papoila disse...

"Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas -
de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos
que as ondas espalham de madrugada pelas praias."

lindo!

papoila disse...

"Quando te levantaste,
disseste qualquer coisa muito breve que me feriu
de morte como a lâmina de um punhal acabado
de comprar."

Brain disse...

Pois é Papoila,

Eu sei que este poema tem muitas coisas com as quais te irias identificar.

Aliás, conforme as pessoas que me conhecem sabem, poucas são as coisas que eu faço, que não tenham um propósito, e o deste post, foi precisamente fazer-te "identificar" com ele, e ficares "na boca" com o sabor do último verso, para o qual, aliás, incidiu a tua primeira "apreciação".

Espero que assim seja.

papoila disse...

A minha segunda "apreciação" resulta do evoluir do dia e do espirito...

Amanhã começo de novo pela primeira "apreciação"...

Andarilhus disse...

Neste silêncio vou revelar-vos mais um segredo: Está um vendaval capaz de derrubar árvores. Mas, se formos lá para o meio do vento, fecharmos os olhos, e pensarmos em algo que nos sustenta em alegria o sorriso, pode até vir um tornado, que não há nada que nos arranque da sensação de felicidade!
No meio da desventura, a ventura (des-ventura)… “(º0º)”

papoila disse...

por aqui não há vendaval, mas sim um calor doentio, apático, que aumenta o cansaço que invade o corpo e principalmente a alma...

Andarilhus disse...

hum... abre a janela...
...da alma e areja! ;-()

papoila disse...

não sei areja-la...

papoila disse...

não sei, mas aprendo!

Andarilhus disse...

A predisposição para a aprendizagem é o primeiro passo para se alcançar o conhecimento.
Primeiro tens de escolher os ares mais propícios à ventilação da tua alma: o que te aporta o sorriso, o que te dá calor e conforto aos dias. Depois, optar pela janela que deves abrir. Finalmente, decidir o momento em que deitas mão ao trinco e libertas o movimento de expansão das duas folhas da janela.
Abstracto, mas permite fazeres a leitura que entenderes melhor…