Porque o tempo para as palavras tem sido pouco...
Porque as palavras que me povoam a mente têm sido canalizadas para o meu 3º livro... (o 2º será lançado no próximo mês)
Em jeito de um "obrigado" pela continuidade, pelo acompanhamento, pelos chamamentos, aqui partilho com todos um pouco dele.
"...
E voltou a beijá-lo profundamente. A beijá-lo com a força de uma maré baixa que se fazia praia. A beijá-lo com a vontade de uma tempestade que crescia. A beijá-lo com um sentir de ser maior, que crescia para ele próprio, que se tornava nele próprio, que era ele próprio para além dele próprio. E o beijo acontecia e o beijo crescia e as mãos que se juntaram ao beijo fizeram-se desejo, reinventaram o respirar. Procuraram-se os corpos. Os corpos uniram-se num abraço. Exploraram-se. As mãos eram elas. As mãos sentiam-se. Um ao outro. As mãos, os lábios, o beijo, sempre o beijo a acontecer, sempre o beijo a crescer. E o beijo transbordou. E o beijo inundou o corpo dela. Passou-lhe para a pele (de que ele não conhecia o odor). O beijo falava-lhe ao ouvido. O beijo dizia-lhe dele. E ela era nele. E a pele descobria-se para o avançar dos lábios. Passou-lhe para o pescoço. O beijo percorria-lhe o ombro. E as mãos dela, queriam a pele dele. E a pele mostrava-se. E os olhos viam-se. O beijo continuava. Mais pele. Sobre a pele. Toda a pele. E tudo ficou pele. Todo ele era pele. Toda ela era pele. E a pele pedia mais pele. A pele exigia mais pele. E então… ele vestiu-a por completo com a pele dele. Ele foi a pele que a revestia. Foi a pele que interiormente a continha, não a conseguindo no entanto nunca conter.
A música que transitara do dia mais longo que ainda não acabara, continuava a tocar e parecia agora ter sido colocada para aquele momento. Os corpos que se encontraram dançavam agora. Dançavam ao ritmo da música que parecia ter sido escolhida para aquele momento. Dançavam ao ritmo do pulsar. Dançavam livres, desenfreados, ao sabor das batidas, mas já não da música. Das deles. Das batidas deles, que cada vez cresciam mais. Mais. Mais. Mais. MAIS! E os corpos abrandavam. Mas as batidas não acompanhavam. As batidas eram mais lentas na descendência. As batidas eram mais exigentes na mudança, porque exigente era também o momento e as mudanças que ele trazia. As batidas. O respirar. Em uníssono. Como um só. A decrescer. Lentamente.
De cara encostada ao peito dele, ela respirava profunda serenidade. E no reflexo que a claridade que chegava de fora provocava, ele viu. Ele viu que ela de novo sorria.
Sorria como uma missão cumprida. Como um objectivo atingido. Como um mais querer finalmente satisfeito. Ela estava. Ela era. Sorriso. Mas um sorriso diferente. Um sorriso pleno. Um sorriso que nunca lhe vislumbrara antes e que lhe dava a conhecer, uma nova faceta da Rita. Uma faceta mais íntima. Uma faceta mais… verdadeira.
..."
Num "mundo de loucos", em que as relações interpessoais muitas vezes nos "passam ao lado", vamos, com base nas nossas vivências e alguma imaginação à mistura, fazer deste cantinho um centro de reflexão e de diversão.
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
quarta-feira, dezembro 31, 2008
Novo Ano
P Á R A !
O L H A
…os dias do ano que termina.
V Ê
…aqueles pelos que passaste e olha aqueles que passaram por ti.
G U A R D A
…em ti o que de melhor viveste
A T I R A
...janela fora o que te magoou
A P R E N D E
…a aceitar o que de bom te aconteceu
F A Z _ H I S T Ó R I A
…do que de mau te ocorreu
E para os dias do novo ano que agora se inicia
F A Z
…aos outros o que gostarias que te fizessem a ti
N Ã O
…aceites menos do que pensas merecer
L U T A
…pelos teus desejos e convicções
V I V E
…todos os dias com a intensidade do último
A M A
…os que te são Queridos e em especial a ti mesmo
S O N H A
…e faz acontecer os teus sonhos
Guarda para ti mesmo:
… um pouco de cada dia
… um pensamento em cada dia
… um olhar em cada dia
… um sentir em cada dia
… uma "loucura" em cada dia
G R I T A
S E N T E
V I V E !!!!
A TODOS UM EXCELENTE 2009!
terça-feira, dezembro 09, 2008
Velho
Olá! Ainda bem que vieste. Porque quero contar-te uma coisa: Hoje, vi-me velho!
Não foi através de um espelho, que muitas das vezes nos retorna a imagem que o nosso cérebro constrói sobre nós. Não.
Vi-me pela objectiva de uma máquina de filmar num filme recente. E vi-me velho.
Não velho pelo cabelo branco, esse que sempre afirmo que tenho desde os 16 anos, mas que no fundo sei que a área do branco de agora, ocupa a do preto desses meus 16 anos e a restante, quase já não existe, por força da queda;
Não velho pelo espaço entre as mãos e os objectos que encurta cada vez mais e que resulta quase sempre no virar do copo cheio ou da garrafa sobre a mesa;
Não velho pelo acto repetido de tirar a gravata para almoçar, como forma de evitar sujá-la, nem da frustração de descobrir que tendo poupado a gravata, tenho de mudar de camisa;
Não velho pelo meu corpo, cujos músculos perdem cada vez mais densidade e firmeza e a luta pela manutenção dele se torna cada vez mais penosa com o passar do tempo, obtendo-se cada vez menos resultado em contraposição com o acrescer do esforço;
Não velho pelos meus amigos, que tal como eu, passam já todas as noites em casa e adormecem quase de imediato, após terem deitado o seu número múltiplo de filhos, enquanto aquele programa (de informação/debate) importantíssimo que tanto ansiavam por ver e não podiam perder, passa na televisão que está mesmo em frente ao sofá em que eles dormem, de boca aberta, sentados;
Muito menos velho pela minha mente, essa que agora considera ainda novos todos os que se situam na casa dos trinta, que afirma que o importante é o espírito jovem (sinal efectivo de que a idade começa já efectivamente a pesar) e que se orgulha pela perspicácia (que no fundo não reflecte mais do que experiência de vida) mas que não se pode dar ao luxo de dispensar a muleta do PDA, pois o que se lembra de manhã, não é o mesmo que se lembra ao início da tarde e muito menos à noite;
Não. Não falo destes aspectos que no fundo apenas agora reuni e que assim aglomerados reforçam ainda mais esta minha sensação. Não.
Vi-me velho… pelas rugas.
Não pelas rugas da pele. Essa pele na qual as mazelas deixam já marcas, na qual cada ferida demora agora muito mais tempo a curar e que também, guarda já muitas dessas marcas vincadas de expressão. Não.
Vi-me velho, pelas rugas vincadas no cansaço do olhar.
E digo-te que fiquei perplexo. Digo-te que fiquei surpreendido por não me reconhecer. Que fiquei mesmo abismado com aquele eu que estava perante os meus olhos, mas que os meus olhos não haviam ainda vislumbrado.
E neste momento penso: E tu? Como será que me vês tu?
Diz-me…
sexta-feira, novembro 28, 2008
Injustiçada Justiça
Injustiçada pela vida,Incorporaste em ti a figura da justiça.
Vendaste os olhos,
Empunhaste a espada,
Mas a balança não.
Falhou-te a balança.
Precisavas da mão livre para segurares as rédeas do cavalo, que mantens sempre em galope livre.
E embrenhada da tua justiça por fazer acontecer, avanças pela multidão que te cerca, degolando, decepando, fazendo-a realidade.
E de olhos vendados, sempre vendados, apenas com os olhos de um sentir que te é sombra, de um sentir que não te deixa ver para além do teu ser injustiçado, avanças… avanças sempre e sempre e cada vez mais e mais e mais. E vais. E prossegues. E não vês. Não vês que o inimigo ficou para trás e que são agora os teus companheiros de lado da batalha que mutilas. E não vês. E prossegues. És uma lutadora. Uma lutadora de vida. Impiedosa como ela sempre o foi contigo. Justa apenas para contigo, pois nunca ninguém mais o foi.
E por dentro do interior da tua armadura sangras.
Sangras as tuas vitórias que são derrotas passadas.
Sangras os teus golpes que desferes defendendo-te de ti.
Sangras um sentir com eco próprio que só tu ouves.
Sangras sobre ti e por ti.
A armadura nunca a tiras. Não sabes, mas tens medo de ti. E dentro dela a sombra guarda-se.
Por vezes baixas a viseira. No limite, tiras o capacete. Mas nunca mais do que isso. Sem ele respiras outro ar e chegas a pensar… ser possível. Mas logo dentro de ti uma nova batalha se despoleta, nessa guerra que te é a vida. Por vezes, é apenas o silvo do vento. Por vezes, ecos de batalhas de outros, mas que tu, logo fazes tuas. E corres a montar o teu cavalo. E maldizendo a vida e a sorte, empunhas de novo a espada (muitas das vezes ainda não limpa da batalha anterior).
E não vês.
Não vês que a espada que carregas és tu. E a guerra que travas é a tua vida.
Não tens descanso.
E fazes-te grande perante o mundo, mas pequena perante ti.
E és em ti mesma,
A própria justiça injustiçada...
...à espera de ser feita.
quarta-feira, novembro 19, 2008
Por vezes...
Por vezes... tenho de me parar os batimentos, apenas para ME lembrar que te amo.Por vezes... tenho de me ensurdecer, apenas para me lembrar dos sussurros e ignorar algumas palavras que me atiras de encontro ao peito.
Por vezes... tenho de me cegar, apenas para ficar com a imagem da tua serenidade e libertar da retina certos olhares da tua indiferença.
Por vezes... tenho de me emudecer, apenas para não te gritar que te AMO, como uma necessidade latente de to lembrar e to fazer sentir.
Por vezes... tenho de cruzar os braços, apenas para não te agarrar, como uma vontade superior em mim de te ter.
Por vezes... tenho de ser forte, para não me veres fraco.
Por vezes... tenho de ser fraco, para veres como sou forte.
Por vezes...
Tenho de me parar os batimentos,
Apenas,
Para TE lembrar,
Que EU,
Na minha (complexa) simplicidade,
Simplesmente,
T E - A M O!
terça-feira, outubro 14, 2008
Curtas 21 – “Pára o Relógio”
Acabara de chegar, vindo de um momento no tempo em que apenas tu existias no meu pensamento.
Não chegara montado no meu cavalo branco, não trazia a espada embainhada, nem viera a galope de cabelos ao vento.
Chegara montado num sentimento único e tão cheio de ti, absolutamente e simplesmente cheio de ti, que tudo em mim transbordava um pouco de algo de ti. Eu era Tu, espalhada por tudo de mim.
Estacionado o carro, dirigi-me ao pontão que dava acesso àquela minha velha cabana, que herdara do meu avô paterno. Segurava na mão a enorme chave, ainda agarrada ao velho porta-chaves a que vinha agarrada quando o notário ma passara para a mão após a leitura daquele testamento que a todos surpreendera e em especial a mim.
Naquele momento, aquela chave encerrava em si mesma o acesso a algo que esperava muito bom, mas que a expectativa e a ânsia pelo acontecer, não deixavam anteceder. No entanto… no entanto era uma sensação já nossa conhecida que o tempo se encarregara de amadurecer em nós, resgatando-lhe tudo o que de perturbador poderia conter em si, deixando apenas ficar o doce da espera, o bom da expectativa da espera, no fundo, apenas a certeza infindavelmente reconfortante da espera. De chave na mão e ânsia no peito, dirigi-me para aquele pontão e caminhei até àquele espaço que confinaria todo o nosso mundo naquela noite.
Não havia trazido nada para criar ou sequer compor o ambiente. Não tinha trazido velas, não tinha trazido essências aromatizantes, não tinha trazido nenhum extra, que não apenas a realidade do momento, para a realidade do acontecer. Tu acontecias em mim, sempre em todos os momentos, em todos os actos, em todos os sentimentos, sentidos, poros, respirares, olhares e sentires. Tu acontecias em mim, existindo dessa forma no mais que poderias ser. Não precisaria de nada mais nessa noite, que não “apenas” Tu.
Por isso quando entrei naquele espaço, limitei-me a olhá-lo no relance de um instante sem que a importância dos pormenores fosse algo maior como era sempre meu costume. Rapidamente arrumei as minhas coisas. Tirei do saco a roupa que de manhã conteria em si (sabia-o) as memórias do que se passaria no decorrer da noite e pendurei-a numa das cruzetas que deixaras livres no armário, ao lado da tua roupa, lisa quaisquer de rugas maculadoras das suas formas, assim como liso e sem máculas era o sentimento que dentro de cada um de nós, nos aquecia os dias das horas, as horas dos minutos, os minutos de todos os infindáveis segundos, em que não existíamos um na presença do outro.
Coloquei a música de tons calmos e ambientadores a tocar e fui despojar o meu corpo dos vestígios do cansaço do dia, acalmar a pele da ânsia pela tua que nela já se começava a fazer notar em cada poro e assim, num duche rápido, preparar o meu corpo para a recepção condigna que o teu merecia.
E tudo (eu) estava pronto para o corolário da tua chegada.
E então, o tempo.
O tempo que passava devagar por mim, se demorava por cima de cada uma das palavras do livro que lia, saltava lentamente de letra em letra, desacelerava a cada vírgula, se demorava ainda um pouco mais em cada ponto final. E mesmo na lentidão desse tempo que na tua espera se fazia cada vez maior, as páginas do livro rolavam sob as minhas mãos e estendia esse próprio tempo que insistia em se deter no ponteiro dos segundos do relógio que num repente, resolvi colocar fora do alcance da minha visão, para não contribuir ainda mais para o aumentar do meu desejo, da minha impaciente forçada passividade pela tua espera.
E o tempo era grande. O tempo era maior. O tempo era muito. O tempo não mais terminava.
E eu lia as palavras, e eu folheava as páginas e tu mesmo não estando presente, tu existias ali, como um ser omnipresente maior que o tempo, maior que as palavras, maior que o livro, maior do que eu, que de forma tão pequena, tão infinitamente pequena, esperava por ti.
E então, Tu.
Com um bater leve de nós dos dedos na face exterior da porta daquele nosso pequeno mundo, anunciaste o término da espera pela tua chegada. Impulsionado por uma vontade que me crescia nos pés, me crescia nas pernas, me crescia nas mãos, me autonomizava o tronco e me empurrava em direcção em ti, rapidamente me coloquei junto à porta que de pronto abri, para que tu entrasses. E o momento aconteceu.
Trazendo contigo o eco dos meus desejos e de todas as minhas vontades, entraste no quarto. Atiraste-me de encontro aos sentires um sorriso arrancado do mais fundo de ti e num simples estender de braços encontraste os meus, guiando-me suavemente de encontro a ti e na envolvência de um abraço, sussurraste-me ao ouvido:
“Pára o relógio!”
E o tempo que era tanto, o tempo que era muito, o tempo que se alongava e demorava e teimava em passar d-e-v-a-g-a-r, esse mesmo tempo, no tempo de um instante, tornou-se pouco. O tempo tornou-se calor, materializou-se desejo, realizou-se paixão, fazendo de nós um, tornando-se a ele próprio, o anti-infinito do toque dos dedos, da carícia das mãos, do teu respirar sobre mim e em mim.
O relógio não parou. Mas a magia dos instantes vividos, eternizou os momentos que cruzamos e fizemos nossos. Eternizou as paredes daquele nosso mundo em nós. Eternizou os quereres sentidos num tudo de nós, em nós e para nós.
E com a pressa do tempo a manhã chegou. E foi com a pressa do tempo do relógio não parado, que amanhecemos um no outro. Amanheci em ti, da mesma forma que amanheceste em mim. E a suavidade desse amanhecer, veio com um tudo tatuado na pele. Foi o odor tatuado na pele, foi o respirar tatuado na pele, foi o nosso silêncio tatuado na pele, foi os gestos tatuados na pele, foi os gritos tatuados na pele, foi com os olhares tatuados na pele, foi a tua própria pele tatuada na minha pele e a minha pele, tatuada na tua pele.
“Afinal, não paraste o relógio!” – disseste.
Não.
Não havia parado o relógio.
Mas o tempo, aquele tempo, o nosso tempo, esse…
Definitivamente…
Ficará para sempre…
Parado em mim!
sexta-feira, setembro 26, 2008
Curtas 20 - Até Quando
Porque num determinado dia um qualquer espelho te disse que tinhas de perder uns quilos extra, subias naquele fim de tarde as escadas de casa, a mesma onde desde sempre moravas. Carregavas nos ombros e nas pernas o peso de um dia inteiro de (silêncio) trabalho e (a dor) o cansaço de afazeres vários, a que a tua (quase) vida solitária te obrigava.
No final do terceiro lanço, após contados todos os 54 degraus dos quais conhecias já todas as imperfeições, arestas, riscos, textura e cores, rebuscavas a carteira em busca das chaves enquanto num grito atirado para dentro de ti, te ecoava na mente a mesma pergunta de sempre: “Até quando?”
Pergunta que assumira já vida própria.
Tinhas consciência da sua existência, mas nem sempre sabias ao que ela se referia.
Até quando continuar a subir escadas?
Até quando o peso de uma vida solitária?
Até quando morar na mesma casa com mais de 30 anos de estória da tua própria vida?
Até quando permanecer nesse espaço vazio de sentires, de respirares, de olhares que não o teu?
Até quando essa solidão?
Até quando essa mesma vida, dia após dia, noite após noite?
Até quando…
E a força da vida exterior continua a empurrar-te para (um nada) a frente, num destino que (não) desconheces mas que também pouco te importa conhecer, porque o lugar onde (não) vais ter pouca importância tem, mediante o lugar (de ninguém) onde agora te encontras.
Queres mudar, mas nada fazes por isso. Na cadência dos dias cedes à habituação dos gestos, à inocuidade dos olhares e nesse marasmo navegas (completamente) à deriva de ti, chorando em alguns momentos em que de fora te olhas e (não) te reconheces.
Navegas por águas passadas e (re)lembras, ambições, desejos, sensações, todas elas grandes, todas elas Maiores e todas elas… por concretizar. E (não) vês que hoje os teus desejos são os mesmos, permaneceram inalterados, excepto na força e na vontade que sentias em concretizá-los. Todas as tuas ambições são (ainda) grandes, mas esperas (muito) pouco.
Transformaste-te numa mera espectadora de ti própria, sem força para abandonar o palco após o baixar do pano.
Encontras finalmente o molho de chaves (ainda agarradas ao teu primeiro porta-chaves) abres a porta e entras na sala com o papel desbotado de mais de 20 anos, (a)tiras os sapatos com gestos abruptos e prostras-te no sofá com a mesma idade e na força do silêncio que te aperta o peito, pensas em ti. Choras o teu destino ingrato e não vês… não vês que o teu destino depende em primeiro lugar de ti e a tua vida é aquilo que TU fazes dela.
Choras a má sorte, maldizes todos os outros que se cruzaram contigo e não te conseguiram fazer feliz e não te apercebes que foste tu, que mediante os teus rigorosos “critérios de selecção” foste afastando gradualmente todos de ti. Hoje, vives de relações conseguidas atrás do conforto da barreira de um monitor e não te chega uma mão cheia para contares todos os amigos (?!?) que assim fizeste.
E volta de novo a ecoar na tua mente a mesma pergunta de sempre: “Até quando?”
Olhas o tecto do qual pende o mesmo candeeiro que a tua Mãe comprou com o juntar de uns tostões suados e pensas que nada de teu existe ali, naquele lugar que é teu (?) e que tão pouco te diz. “Um dia mudo isto tudo” pensas tu para dentro de ti própria, onde ouves o eco da frase resposta: “Mas hoje não. Hoje estou muito cansada.”.
O estômago lembra-te o já ultrapassar das horas de refeição e um novo cansaço nasce de dentro de ti. Limitas-te a enfiar a mão num dos sacos que carregaste escadas acima, do qual retiras uma maçã que assim é elevada à categoria de refeição num momento de esgotamento profundo elevado à categoria de vida.
Comes a maçã com o mesmo desinteresse que choras as cenas do filme a que assistes mais tarde, até te lançares sem resistência nos braços de Morpheu, que querias homem para te aconchegar nessa noite e nas próximas que sabes virem, entradas pela mesma porta, sentadas no mesmo sofá, debaixo do mesmo candeeiro, entre o mesmo papel de parede que te serve mais vezes de lençol que os próprios lençóis da cama, a qual muitas das noites, não chegas sequer a sentir.
Estás parada em ti, num tempo que é só teu, com a vida a decorrer à tua volta, mas não em ti.
Até quando?
Tens os desejos envoltos em sentimentos que te são externos e não consegues resgatar para dentro de ti.
Até quando?
Tens as mãos frias de um nada de sentires a que te agarras para não te afundares.
Até quando?
Tens o vazio de uma casa outrora não tua, tal como agora.
Até quando?
Não tens nada!
Até quando?
Subscrever:
Mensagens (Atom)