Curtas 22 – “Aquele nosso mundo”
Meti pela última vez a chave na porta daquele que era o nosso mundo. E naquele momento houve algo que mudou em mim.
Como se sentisse a chave entrar de uma forma diferente;
Como se o barulho que a mesma fazia na sua progressão tivesse outro tom;
Como se a fechadura fosse mais larga;
Como se oferecesse menos resistência;
Como se uma camada de ar revestisse a chave e a auxiliasse no seu caminho por entre os pinos da fechadura que pareciam não se quererem contrapor aos dentes da chave;
Como se houvessem menos obstáculos ao acto em si;
Como se a mão que empunhava a chave não fosse mais a mesma, ou o corpo que a suportava não tivesse mais os mesmos sentires…
Meti pela última vez a chave na porta daquele que era o nosso mundo, e entrei no lugar que não era mais teu. Estava vazio de ti. Levastes-te para sempre dali, arrancando-te de mim à força como um vendaval que passa e arrasta consigo os haveres. Os teus haveres. Todos os teus haveres que levaste contigo, deixando no lugar deles o silêncio dos espaços vazios. O vazio dos espaços em silêncio.
Aquele nosso mundo que agora não era mais teu, era o lugar onde o silêncio se havia perdido e estava espalhado e derramado e impregnado por toda a casa. Não havia ruídos de ti. Não havia mais do que as memórias dos ruídos de nós. Não se faziam ecoar nas paredes mais do que os meus gritos mudos, que em segredo lançava para dentro de mim e me arrancavam as minhas certezas mesmo das minhas mais recônditas profundezas.
Aquele nosso mundo não era mais teu.
E aquela casa era eu.
Vazia de ti.
E lentamente sucumbi…
…para dentro de mim…
…ao sabor da minha implosão.










