sábado, setembro 03, 2016

GRANDE O MAR

É grande todo este mar à minha frente.

Depósito de memórias. Alegrias. Temores. Tristezas também. Com fumo de cigarro. (de mim que não fumo). Os rochedos que tão bem conheço. O toque desta areia. Olhar longe.

Com aquele dia. Negro. Súmula de vida. Vim aqui para me perguntar. Para me encontrar. Sem saber se continuava. Ou desaparecia. Quando a tua voz rouca

- Estás sozinho?
Quando isso era de todo impossível. Tantas as vozes dentro de mim. Mas tu não sabias.

- Que fazes aqui?
E eu sem saber o que te dizer. Procuro-me. Mas não me encontro. Só. Perdido na tua voz. Rouca. E o meu silêncio. De pés enterrados na areia. Húmida. Em arrepio de frio.

Olhavas-me. Curiosa. Por entre os teus cabelos. Pretos. Longos. Ondulados. Misturados com a tua voz. Masculina. No teu corpo feminino. Bem trabalhado. Como a tua voz. Que me atraía.

Sentaste-te a meu lado e ficaste comigo a olhar o mar. Este. Todo. Grande. Que se estende à minha frente. Perguntei-me se seria o mesmo. O que tu vias. Quando uma gaivota ao longe. Teus olhos acompanharam-na. De encontro aos meus.

- Nunca te vi por cá. Costumas cá vir?
E eu ali. Todo nos teus olhos. Com toda a minha vida. Naquele momento acumulada. Em pressão. Entre as mãos. (estranhamente não me lembro das tuas) Com o meu corpo a responder por mim. No meu silêncio. No teu sorriso.

Afastado, um homem chamou-te.

- Tenho de ir. Sou a Laura. Estou sempre por cá. Aparece.
E de um salto correste em direcção a ele. Quando finalmente a minha boca em movimento. Para te falar. Dizer o meu nome. Despedir. Mas nenhum som.

Voltei. Várias vezes. Não mais te encontrei. E até hoje não sabes.
Que os meus dias não terminaram. Que continuo por cá. E ainda me lembro de ti.

sábado, agosto 27, 2016

O QUE FICA

Nunca é a mesma luz que me ilumina. Muda a cada dia que passa. A cada hora. Cada minuto. Como eu. Que já morri tantas vezes. E nunca é o mesmo eu que fica. Sempre outro. Como as sombras. Que se acumulam. Que não mudam. Amontoam-se. Espalham-se.

Já morri tantas vezes.
Lembro-me bem da primeira vez. Uma espingarda de pressão. Um pequeno pássaro na minha mira. O disparo. A queda. Do pássaro. E de mim. Ambos tombados no chão. Em agonia. E a interrogação na minha mente: Porquê? Mergulho em mim na procura de razões. A ausência do encontro. Devastação de ser. E nunca mais o mesmo.

Já morri tantas vezes.
Depois as pessoas. Várias. Muitas. Uma a uma. Em choque. Em dor. Cada uma delas levando um pedaço de mim. E as sombras a ganhar volume. A espalharem-se. E eu sempre na penumbra. Com alguma procura da luz. No meio do medo. Esse. Que me fala. No silêncio. Com silêncio. E nele eu sei. Eu sei que a loucura tem espinhos. Que constantemente me ferem. Que constantemente me tentam. E resisto.

E eu, que já morri tantas vezes, eu sei.
Sei que a vida inteira é um acto de deixar partir. Mas eu não gosto de partidas. Nunca estou preparado. Muito menos dessas. Sem momento de despedida. Dos outros. Ou de mim.

sábado, agosto 06, 2016

SEM MIM

Aqui estou eu outra vez. Frente a esta porta. Sempre a mesma porta. A chave na mão. Olhos no chão. Pés parados. Tudo tão pesado. A vida em atraso. Querer abraçar-te e não ter coragem. Aqui, todo eu sou nojo. E como que ardo por dentro. Chega-me o cheiro a café. Com ele a imagem da (nossa) cafeteira. E eu um fraco. A vida como justificação. Em mentira. Eu todo culpa. A tua imagem em mente. E por isso parado. Sem coragem para entrar. A imaginar-te em palavras:

- Correu bem no trabalho?
E eu com os olhos em fuga a responder-te que sim. Que o trabalho é muito. Por isso o chegar mais tarde. A mentira a pesar. E o medo que a vejas nos meus olhos. Mais ninguém me conhece assim. Tu em aproximação. E o receio maior:

- Que cheiro é este?
E eu não saberia o que te responder. Em denúncia. Por isso cheiro uma vez mais a minha roupa. Em procura. E só o meu cheiro. Em descanso. Junto com o cheiro a medo. Que só eu sinto. Pelo menos acho que é assim. Que só eu. O medo de tudo. E o desejar não o ter feito. Arrependimento. E o saber que amanhã será igual. É sempre igual. E o cheiro do café. E tu lá dentro. E eu fora. Em culpa.

Tivesse eu coragem. Seria outro.
Não sem ti. Nunca sem ti. Sem ela. Ou então… sem mim.

sábado, julho 30, 2016

DAS MÃOS

As pedras são locais de repouso. Nas sombras.
Sentados as mãos unem-se. Lugares de certezas. Em carícias.

Das tuas, eu falo-te em árvores. E tu sorris.
Pensas na força do tronco, enquanto eu te quero dizer da segurança das raízes.
Tu falas-me do meu rosto. E eu sorrio.
Penso em beleza, desconhecendo do que me queres dizer.

Ao cimo os pássaros. Com eles somos lugares de sonhos.
Não sabemos do que nos dizem no seu chilrear. Batem asas e mostram-nos liberdade.
Um nunca estar no mesmo lugar. Busca contínua.
Há um ninho perto de nós. E falas da vida a crescer.

Eu digo-te das tuas palavras. E tu sorris.
Pensas no conteúdo em sabedoria, enquanto eu te quero dizer do carinho em profundidade.
Falas do meu sorriso. E eu sorrio ainda mais.
Penso em meninice, desconhecendo do que me queres dizer.

Vida em conjunto. Duas peças de um mesmo jogo.
Cada um sabe o que o outro fala. Não sei se algum sabe do que o outro diz.
As palavras são como pássaros. Voam livres.
Mas carregam significados diferentes em cada um de nós.

Quando eu te digo amor, tu ouves êxtase.
Quando tu me dizes para sempre, eu ouço felicidade.

sábado, julho 23, 2016

AUSENTE

“Aqui em baixo não se vê o vento”
Como se o vento importante. Como se alguma vez o visses. Como se ele mais do que tu.

“Aqui em baixo tudo é frio”
Como se o calor uma força maior. Como se a temperatura toda a vida. Como se o frio em tudo mau.

“Aqui em baixo é escuro”
Como se a luz te prolongasse. Como se a luz a tua vida. Como se a luz fosses tu.

Dentro da caixa, tentavas encontrar-te. Ser em morte o que nunca foras em vida. Ter em pensamento o que nunca tiveras em emoção. Ser no silêncio o que nunca foras em palavras.

Dentro da caixa eras apenas tu. E ninguém verdadeiramente te conhecia.
Eras nada do que te diziam. Um ser desconhecido que todos julgavam conhecer. Repleto de virtudes. Carregado de predicados. Parco em defeitos. Do que diziam nada eras tu. Palavras de um outro ser.

Aí em baixo não há calor.
Aí em baixo não há luz.
Aí em baixo não se vê o vento.
Mas aí em baixo, o maior ausente, és tu!

sábado, julho 16, 2016

CORRES

Pés. Renúncia. Velocidade. Medo.

Equipado corres o vento. Colocas tudo quanto és nas pernas, e sais para te enfrentares. Todo tu és uma só coisa. Respiração. Todo tu és um só esquecimento. Em dor. Procuras o espírito do dia, mas apenas uma lírica estranha te assola. São teus os pés que te levam. São tuas as pernas que te carregam. Anatomia em funcionamento. Mas nunca são apenas tuas as vontades. Sinapses. Todas as coisas te forçam. Muitos os sonhos. Todos os pesadelos. Pálpebras que não (te) cobrem.

Há um silêncio único dentro de ti. Que te impele. Te conta os minutos e os quilómetros. Te mede a pulsação. E que te diz. Que tu não és nunca apenas tu. És também outros. Outra coisa. Outras coisas. Fora de ti. Há outros com que te cruzas. Mas não estão alinhados contigo. Tu és apenas tu. Em velocidade. Em medo. Medo de te cruzares contigo. De te encontrares dentro da tua fuga. Porque ninguém se perdoa. Nem o tempo o faz.

Os olhos em frente. É grande a loucura. É pura a dor. Minado o teu chão. Por vezes paras. Por vezes aceleras ainda mais. Porque são vivas essas outras coisas. Algumas mortas também. E tu és um lugar de loucura. Em pele. Em fuga. Imaginas-te em fim. Objectivo conseguido. Mas ele longe. E tu continuas. Em demência. Para conseguires ainda sorrir.

Porque só o esquecimento o permite. Em absoluto. Mas nunca tu.

sábado, julho 02, 2016

NÃO SEI POR ONDE

Cheguei e já não estavas.
Faz tempo, muito tempo, que te foste embora durante a minha ausência.

Atrás de ti, ficou a tua sombra. Misturada com a penumbra do nosso quarto. Não te seguiu. Optou por ficar aqui. Junto com o teu silêncio. Junto com todas as palavras que não nos dissemos. Junto com todos os abraços que não nos demos. Com a pasta dos dentes. Gasta (como nós). Vazia e sem tampa. No lixo.

Agora, há o silêncio. Há as mãos. Os gestos. E há os passos nas escadas (que não são teus). Em direcção a esta casa (que já não é tua). E há aquela pausa. Aquele breve momento entre o chegar, o rodar a chave, e o abrir a porta. Que agora, nunca é a desta (já não) nossa casa.

Cá dentro, são longos os corredores. Muitas as portas. Sempre estiveram abertas. E tu, sempre circulaste livremente por todas elas. Entravas quando querias. Saías quando te apetecia. Voltavas quando precisavas. Sem hora marcada. Sem necessidade de motivo. Porque aqui, simplesmente: éramos.

São muitas. As portas. E já faz tempo, muito tempo, que te foste embora durante a minha ausência. Até hoje, não sei por que porta saíste. Fechaste-as todas.

E eu, não o sabendo, não sei por onde te arrancar de mim.