sábado, janeiro 07, 2017

POSSO

Posso dizer-te que já não me és. Que já não te quero. Que já não te tenho em mim. Que o tempo apagou todos os teus traços e que o meu corpo já não tem memórias de ti. Que a tua voz já me é estranha. O teu toque já só me é sombra. Passado. Que tudo o que é meu nada tem de ti. Que o meu cio já não te pertence. Que os meus arrepios são apenas meus. Que sem ti sou maior. Mais que tu. Muralha. Alta. Forte. Blindada. Mas as janelas...

Há janelas que por vezes se abrem para te deixar entrar. Em jorro. Avalanche. Tudo num único instante. E tudo então é mentira. Ardes-me em cada ruga de pele. Em cada vinco de poro. Nos lábios nus. E procuro-te incessantemente. Desejo-te. Quero-te. Não importa como. Inteiro, ou aos pedaços. Com todo tempo, ou a tempo contado. Em imagem, ou apenas em som. Desde que na pele. Na noite. Sobre mim. Dentro de mim. Porque só tu me estremeces. Só tu me fazes líquida. Animal. Urro. E grito. Só tu tens nas mãos o poder do tempo. Em que somos. Em que me fazes. Em que nada mais.

No egoísmo de te querer inteiro, perdi-te. E tudo o que tenho agora é esta luz. Este vazio a que me agarro. Silêncio onde me sangro. Me perco. Definho. Tenho medo de saber mais do que sei. Porque não te quero saber noutra. Não te quero saber noutro corpo. Noutra pele. Noutros gritos. E does-me. Mas eu quero-te nesta dor. Em espinhos. Em sangue. Desde que teu. Desde que só meu.

A luz já só me queima. Calcina-me as entranhas. Mas seguro-a com toda a minha força. Agarro-a. Faço-a tudo de mim. Porque ela é tudo o que me resta. De ti. E eu, que não te posso perder de mais nenhuma forma, aprisiono-a. No meu corpo.

Até que tu. Numa dor de cada vez.

sábado, dezembro 31, 2016

METÁFORA

E eis que termina. Apagam-se as luzes. O pano baixa. E atrás dele vês o público ir. Um a um. Lentamente todos seguem em direção à saída. Oposta a ti. Deixam-te só. Atrás do pano. Mas ainda assim, no palco. Onde não és nada depois do aplauso. Vazio após clímax. Final de jornada. Em rotina.

Continuas a ser tu. Falas ainda decoradas. Arte ainda em rubro. Mas inúteis após o final. Agora nada mais és para além de ti. Despido de função és apenas tu. Ilha. Solo de piano. Ser em evidência. Num momento o centro de todas as atenções, no seguinte sem ninguém que te olhe. Que te fale. Te veja como és. A ti, não a uma personagem. Te acarinhe como precisas. A ti, não a uma personagem.

Atrás do pano, a sós contigo mesmo, encontras-te sem que te procures. Vês-te sem que te olhes. Sentes-te sem que te toques. E no cruzar de ti, do que és com o que fazes, apenas um calor:

O saber que depois de cada final, há um novo (re)começo!

sábado, dezembro 17, 2016

TARDE DE VERÃO

De repente, ali estávamos nós.
Uma mesa frente ao rio. A chávena do café do cliente anterior. As tuas mãos. A água ao fundo. O Sol. A calçada. O teu cabelo. Tudo ali era nosso. O chilrear dos pássaros. O teu pescoço. Um novo passado em construção. E toda uma vida lá atrás. Quando tu

- Gosto das tuas mãos.
E eu a pensar em todas as coisas. Nas que as tuas palavras me diziam. Naquelas que te poderia dizer. Nos teus dedos. Nos teus lábios. Na tua pele.

- São perfeitas. Embora pequenas.
Quando ali a perfeição eras tu. E todo eu pequeno perante ti. Tentando crescer. Ser maior. Em palavras. Em ser.

Depois os lábios. O amor. O querer e todas as vontades.
Fomos cama. Fomos chão. Fomos serenidade em desvario. Todos os gostos. Gozo. Dádiva. Ternura. Animais. Pedaço de tempo finito. Até que a Lua.

- É tarde. Tenho de ir.
E tudo ainda por dizer. Tudo ainda por fazer. Um passado novo. Um diferente nós. Declarações de vontades. Amanhã.

Saímos e não mais o rio. Não mais os pássaros. A chávena do café, nem a calçada.
Agora tudo era tempo. Em falta. Em correria. Para mim. Para ti... não sei. Embora tu

- Queria prolongar este momento eternamente.
Enquanto os beijos em despedida. Os olhos em despedida. As mãos em despedida.
O teu corpo em definitivo.

O novo passado não se escreveu. O presente continuou. Em vidas. Em manutenção.
Mas ficou mais doce. Em memória. Em pele. E em sorriso.

sábado, dezembro 10, 2016

QUANTO FICA

Do tudo que dás, quanto guardas em ti?
Qual a reserva com que ficas para o após? Para a partida? Separação? Para a dor?
E da vida que fica quanto ainda és tu? Sobram palavras, ou apenas espaços? As Pausas. Todas.

És sempre o tudo em que te dás? Deixas que levem o melhor de ti?
Ou guardas-te em baú? Em proteção de ti? Em controle?

Controlas? Controlas-te?

É na esteira do barco que vive a espuma. E é nela que os peixes formulam os regressos.
A esteira existe, quer o barco passe rápido ou devagar. Mas é na pressa dos dias que a esteira é maior. A espuma mais densa. Em êxtase. Em absoluto. Em tempo. Mas sem pensar no regresso. Sem pensar no ficar. Nos lugares. Ou nas pessoas. Nos nomes em que nos tecemos.

Ficamos com o barco, com o mar e com as memórias porque esses não partem. Mas as nossas partes sim. Com os peixes que regressam ao longo da esteira. E as levam como se fôssemos deles. Pedaços nossos alheios de nós. E ficamos vazios. No vazio. Num para sempre finito.

Controlas? Controlas-te?

Eu não quero retalhos de mim. Quero-me inteiro. Quero-me em sempre.
Quero-me em ti. Todo. No teu nome. No meu nome. Em todos os nomes de todos em que me teço. Não me quero em cuidados de dádiva. Em resguardo. Em controle. Quero-me em esteira larga. Sempre. Agitada. Espuma densa. Em regressos ternos. Em cuidados raros. Em todos os nadas plenos de tudos.

Quanto fica do tudo que dás? Não sei. Só sei que dou tudo. Esperando que retorne tudo.
Mesmo sabendo, que tu não retornarás.

sábado, dezembro 03, 2016

TU E O MEU BOLO DE CHOCOLATE

Quero começar por te dizer que não gosto de bolo de chocolate. É daquelas coisas que pelo excesso me causam arrepios. Não me convencem. E para mim, um verdadeiro bolo de chocolate, tem de pecar em muito. Pelo excesso. Pelo absurdo até! Ou então, não é merecedor do nome.

O bolo de chocolate tem de encher. Preencher. Transbordar todas as medidas. Tem de ser provocador ao olhar. Tem de despertar todos os nossos sentidos e (até) a nossa líbido, pelo desejo (selvagem) de simplesmente: o DE-VO-RAR. De uma só dentada. De uma só vez. Por inteiro. Sem ses nem porquês.

E depois… demorá-lo na boca.
Acariciá-lo com a língua. Em deleite. Sentir-lhe todos os aromas. Todos os pequenos pormenores. Todos os seus compostos até a partícula mais ínfima.
E no final: fechar-nos os olhos e rasgar-nos um enorme e descomprometido sorriso nos lábios!

Eu, eu não gosto de bolo de chocolate.
Eu Amo-te!

sábado, novembro 19, 2016

UMA VOZ

Primeiro foste a promessa de uma voz. Serena. Melodiosa. Sem te conhecer e sem ti, assim me foste descrita. Como um som. Omitindo — se calhar porque não sabiam — que a tua voz é (muito) mais do que isso. É calor. É sorriso. A tua voz tem um sorriso que a diz. Que a precede. Que a anuncia e que a suporta.

Assim nascemos um para o outro. Pequeninos. Em voz. Sorrisos e calor.

Mas o calor da tua voz provém (hoje sei-o) de um coração largo. De dádiva. Em serenidade e em gosto. E por isso, as mesmas palavras ditas por ti, nunca são aborrecidamente iguais. Antes afagos. Brisas primaveris. Prazeres renovados. E com esta (conveniente) desculpa de co-existência pelas palavras, fomos crescendo. Um para o outro. Um com o outro. Em constantes propostas mudas de entendimento. Daquilo que o outro é.

Com o tempo, tornaste-te um pólo afastado de mim. Alguém que está na extremidade da minha voz. Na ponta dos meus dedos. Mas sempre dentro do meu ser. No centro das minhas palavras. Em sorriso.

Hoje, tenho-te em amizade. Em consciência de vida. Lado rico da humanidade.
E hoje, contigo, mesmo que por vezes (muitas vezes, demasiadas vezes) sem voz, eu existo.
E escrevo. Para te dizer. Mesmo sabendo que o calor não se escreve. Só sorri. Sempre.

sábado, novembro 12, 2016

ENCONTRA-ME

Procura-me. (e por favor) Encontra-me. Estou naquele lugar que toda a gente conhece, mas ninguém sabe onde fica. Tu sabes onde eu estou. Eu não. Habita os meus dias. Aqueles. Que acontecem totalmente em mim. Apenas por dentro. Em garfos. Sob os cascos do tropel de mil cavalos.

Olha bem para mim.

Não sejas como o espelho que se enfastia. As suas imagens têm travo a carne seca. A ideias gastas. Desilusão de vida. Língua que mordo. Portas que batem sem se abrir. Sentimentos espalhados pela rua, que a chuva leva.

Se soubesses…

Não são os dias que são sombrios. Não são os sons que são tristes. Não são as flores que murcham nem as palavras que me prendem. SOU EU! Eu é que existo a ferros. Sou todo espinhos. Peso. Noite. Em tempestade(s). Gastas.

Hoje quero-te.

Hoje quero chamar-te meu. Mas eu sei que nunca serás meu. Serás apenas tu, de passagem em mim. E quando a tua estação terminar, ficarei novamente e uma vez mais apenas eu. Vida só. Sem rede. Ser pasmado. Mas não incrédulo. Porque a minha existência não é de ilusão. É terra. É pedra. Dureza de existir. Dor de acontecer.

Procura-me. (e por favor) Encontra-me. Mas não me fales. Dá-te com um sorriso apenas.
Só assim será mais fácil. Quando o mar apagar o teu nome, que eternizarei na areia molhada.