sábado, julho 30, 2016

DAS MÃOS

As pedras são locais de repouso. Nas sombras.
Sentados as mãos unem-se. Lugares de certezas. Em carícias.

Das tuas, eu falo-te em árvores. E tu sorris.
Pensas na força do tronco, enquanto eu te quero dizer da segurança das raízes.
Tu falas-me do meu rosto. E eu sorrio.
Penso em beleza, desconhecendo do que me queres dizer.

Ao cimo os pássaros. Com eles somos lugares de sonhos.
Não sabemos do que nos dizem no seu chilrear. Batem asas e mostram-nos liberdade.
Um nunca estar no mesmo lugar. Busca contínua.
Há um ninho perto de nós. E falas da vida a crescer.

Eu digo-te das tuas palavras. E tu sorris.
Pensas no conteúdo em sabedoria, enquanto eu te quero dizer do carinho em profundidade.
Falas do meu sorriso. E eu sorrio ainda mais.
Penso em meninice, desconhecendo do que me queres dizer.

Vida em conjunto. Duas peças de um mesmo jogo.
Cada um sabe o que o outro fala. Não sei se algum sabe do que o outro diz.
As palavras são como pássaros. Voam livres.
Mas carregam significados diferentes em cada um de nós.

Quando eu te digo amor, tu ouves êxtase.
Quando tu me dizes para sempre, eu ouço felicidade.

sábado, julho 23, 2016

AUSENTE

“Aqui em baixo não se vê o vento”
Como se o vento importante. Como se alguma vez o visses. Como se ele mais do que tu.

“Aqui em baixo tudo é frio”
Como se o calor uma força maior. Como se a temperatura toda a vida. Como se o frio em tudo mau.

“Aqui em baixo é escuro”
Como se a luz te prolongasse. Como se a luz a tua vida. Como se a luz fosses tu.

Dentro da caixa, tentavas encontrar-te. Ser em morte o que nunca foras em vida. Ter em pensamento o que nunca tiveras em emoção. Ser no silêncio o que nunca foras em palavras.

Dentro da caixa eras apenas tu. E ninguém verdadeiramente te conhecia.
Eras nada do que te diziam. Um ser desconhecido que todos julgavam conhecer. Repleto de virtudes. Carregado de predicados. Parco em defeitos. Do que diziam nada eras tu. Palavras de um outro ser.

Aí em baixo não há calor.
Aí em baixo não há luz.
Aí em baixo não se vê o vento.
Mas aí em baixo, o maior ausente, és tu!

sábado, julho 16, 2016

CORRES

Pés. Renúncia. Velocidade. Medo.

Equipado corres o vento. Colocas tudo quanto és nas pernas, e sais para te enfrentares. Todo tu és uma só coisa. Respiração. Todo tu és um só esquecimento. Em dor. Procuras o espírito do dia, mas apenas uma lírica estranha te assola. São teus os pés que te levam. São tuas as pernas que te carregam. Anatomia em funcionamento. Mas nunca são apenas tuas as vontades. Sinapses. Todas as coisas te forçam. Muitos os sonhos. Todos os pesadelos. Pálpebras que não (te) cobrem.

Há um silêncio único dentro de ti. Que te impele. Te conta os minutos e os quilómetros. Te mede a pulsação. E que te diz. Que tu não és nunca apenas tu. És também outros. Outra coisa. Outras coisas. Fora de ti. Há outros com que te cruzas. Mas não estão alinhados contigo. Tu és apenas tu. Em velocidade. Em medo. Medo de te cruzares contigo. De te encontrares dentro da tua fuga. Porque ninguém se perdoa. Nem o tempo o faz.

Os olhos em frente. É grande a loucura. É pura a dor. Minado o teu chão. Por vezes paras. Por vezes aceleras ainda mais. Porque são vivas essas outras coisas. Algumas mortas também. E tu és um lugar de loucura. Em pele. Em fuga. Imaginas-te em fim. Objectivo conseguido. Mas ele longe. E tu continuas. Em demência. Para conseguires ainda sorrir.

Porque só o esquecimento o permite. Em absoluto. Mas nunca tu.

sábado, julho 02, 2016

NÃO SEI POR ONDE

Cheguei e já não estavas.
Faz tempo, muito tempo, que te foste embora durante a minha ausência.

Atrás de ti, ficou a tua sombra. Misturada com a penumbra do nosso quarto. Não te seguiu. Optou por ficar aqui. Junto com o teu silêncio. Junto com todas as palavras que não nos dissemos. Junto com todos os abraços que não nos demos. Com a pasta dos dentes. Gasta (como nós). Vazia e sem tampa. No lixo.

Agora, há o silêncio. Há as mãos. Os gestos. E há os passos nas escadas (que não são teus). Em direcção a esta casa (que já não é tua). E há aquela pausa. Aquele breve momento entre o chegar, o rodar a chave, e o abrir a porta. Que agora, nunca é a desta (já não) nossa casa.

Cá dentro, são longos os corredores. Muitas as portas. Sempre estiveram abertas. E tu, sempre circulaste livremente por todas elas. Entravas quando querias. Saías quando te apetecia. Voltavas quando precisavas. Sem hora marcada. Sem necessidade de motivo. Porque aqui, simplesmente: éramos.

São muitas. As portas. E já faz tempo, muito tempo, que te foste embora durante a minha ausência. Até hoje, não sei por que porta saíste. Fechaste-as todas.

E eu, não o sabendo, não sei por onde te arrancar de mim.

sábado, junho 18, 2016

RETORCIAS OS MOMENTOS

O teu longo cabelo era um espaço de tempo.
Com a ponta dos dedos, nele, retorcias os momentos. Em movimentos circulares. Enrolando-os. Como se a circularidade concêntrica do gesto, fosse capaz de reter no seu centro (que eras tu) a magnitude dos segundos infinitos. Aqueles. Em que na tua pele, todos os momentos ocorriam e tudo te pertencia.

Retorcias os momentos, enrolando-os com os dedos.
Prendendo-os em ti. Encurralando-os no tempo. Não para que o tempo parasse. Mas para que o seu avanço não desfizesse a magia das marés. Nem do sonho (que era eu). Não o escrevias nas páginas porque o querias só teu. E as páginas são efémeras, mas o sentimento não. Dizias.

Retorcias os momentos e escrevia-los em ti.
Enquanto ao longe a gaivota. Enquanto em nós o pulsar e o sangue. E sorrias.

sábado, junho 11, 2016

QUASE

Olho-te no soslaio de uma certeza de quase te ter tido em completo, apenas para mim.
Na incerteza de um acidente que quase não aconteceu, ficou a certeza do choque que as tuas mãos provocaram no meu corpo.

Para mim, serás a eterna dúvida que o teu odor me dá. Como uma certeza.

Nas noites em que juntos quase dormimos, elevamo-nos a um estádio maior, nos lugares onde as mãos aconteceram. E na emoção das memórias quase diariamente revividas, surges como o todo de um sentir que, quase foi nosso.

E o mundo, que quase se vergou a nós e à explosão do que fomos, quase ficou deserto no grito que se soltou, quando tu te despediste de mim.

Eu, que quase morri no momento em que me apercebi que tu apenas quase ficaste, abandonei-me em prostração ao desvario dos meus pensamentos, em todos os momentos que, no mais fundo da tua ausência, quase te conseguia sentir.

E quase consegui ficar no mesmo lugar.
Mas a ausência dos teus sítios em mim, deixaram-me vazio ao ponto de quase não conseguir respirar o ar, daquele lugar que quase foi nosso.

E quase consegui continuar a fazer as mesmas coisas.
Mas os teus gestos impregnados em mim, quase me transmitiam a tua omnipresença, não me permitindo avançar.

E… quase consegui continuar a ser eu.
Mas eu quase não existia sem ti. Sem o calor do teu olhar. Sem o toque da tua pele. Sem o som do teu sorrir.

E foi então que me apercebi. Apercebi-me que não fazia sentido continuar apenas a quase viver.
Tu tinhas fugido para longe de mim. Levaras o teu corpo. O teu odor. O teu olhar. As tuas palavras. Todos os meus sentires e quase a minha sanidade, em todos os momentos que pensava:
… quase fomos “nós”!

E agora, que apenas em pensamentos existo, quase vivo em ti. Dentro de ti. Por ter sido esse o lugar onde me guardaste, quando soubeste que eu partira. Eu. Por não ter sabido viver. Sabendo que apenas quase te tinha tido!

E ironicamente, com isso, agora posso dizer que, finalmente:
… quase somos “nós”!

sábado, junho 04, 2016

PESO

É tremendo todo este peso que se apoia sobre os meus pés. Ando. Corro. Mas o peso é maior.
Tenho esta cabeça. A minha cabeça. Com tudo o que está dentro dela e teima em sair. E teima em ficar. Em me tomar. Como um todo. Minhas mãos querem ser mais. Maiores. Mas é o peso. Este peso. Que me domina. Olho em volta. Quero ser outro. Neste momento não quero ser eu. Outro. Um pássaro. Porque há pássaros livres. Sem peso. Mas não sou. Sou eu. Não sou pássaro. Sou chão. Peso. E raízes. E tudo isto que está dentro da minha cabeça. E não sai.

Há momentos tudo era alegria. Expectativa. Futuro. Ouro por cima. Neste momento tudo é peso. Tremendo. A grande roda da vida levou-me. Tirou-me de casa. E eu fui. Confiante. E agora não me encontro. Procuro-me. Não sou eu. Não percebo. Não me percebo. Não me quero. Quero-me outro. Mas não o sou. Continuo. Ao fundo vejo um rio. Parece fluir. Correr em direcção ao mar. Seu fim. Sinto-me na corrente. Com o percurso já completo. No fim. Mas não estou. Trago-me para cima. E permaneço. E as palavras não são nada. Nada mudam. Mas são tudo o que me resta. E por isso elas. Na boca. Em desagrado. Em desgosto. Na distância. Mas única coisa. Como coisa única.

Quero sair. Desaparecer. Mas não posso. E continuo. E permaneço. E sou eu.