Olho-te, e de ti nada sei.
Quem és. O teu nome. Os caminhos até aqui.
É melhor assim (penso). Passos anónimos. Página em branco.
Não digas nada.
Trarias dores. Cicatrizes. Mágoas a escorrer pelas paredes. Rostos emoldurados.
Palavras Cruas. Invernos e outras ausências.
Falarias de outros nomes em corpos que desconheço.
Braços em força, talvez. Ou sorrisos em ferida. Escuros.
Não me digas nada. Quero-te assim:
Vislumbre de primeiro olhar. Em infância. Corpo anónimo. Em segredo.
Se quiseres, conta-me mentiras enquanto te aconchegas nas minhas palavras.
Nelas tudo é real. Podes concretizar-te. Em desejos. Vontades. Em futuro.
No que não foste. No que queres ser. Noutra vida ou até mesmo na tua. Não sei.
Do teu passado apenas os teus olhos. Profundos. E as tuas mãos. Trémulas.
Que não falam. Dizem de ti. Noites.
Não. Não me digas nada. Deixa ficar assim.
Sem mordaças nem palavras impossíveis. Sem enganos. Sem tabus.
Deixa que o nós aconteça. Que os teus lábios falem os meus. Apenas.
Não quero o engano do teu nome. Em esquecimento.
Já basta o (frio) destino. Que nunca se esquece.
E nunca se engana no nosso nome.
Num "mundo de loucos", em que as relações interpessoais muitas vezes nos "passam ao lado", vamos, com base nas nossas vivências e alguma imaginação à mistura, fazer deste cantinho um centro de reflexão e de diversão.
sábado, abril 16, 2016
sábado, abril 09, 2016
FOMOS
Preenchi todas as rugas e arranjei cada fio de cabelo. Revi o meu léxico. Anulei a pronúncia, e levei em mãos todas as palavras para ti.
Falei-te. Disse-te do amor. Mas tu (já) não eras mais do que um amontoado de silêncios. Em acumulação. Delírio de significantes. Por saber.
O pão permanecia em cima da mesa. Semi-cortado. A mesa era a mesma e o banco também.
(tábuas velhas - dizias tu). E eu, olhando para elas, só nos via em vida. Tu: o pão fresco, saboroso, ainda morno. Eu: A mesa que te dava suporte. E o banco(?), algo que estava por ali. À procura de se encontrar.
Delírio (meu) de significados.
Tu eras o pão, a mesa e até a própria faca. Tu própria. Apenas. Só. Em autonomia. Não nós.
E eu, mais não era senão o banco. Perdido. Sem função (para ti). Na tentativa de me encontrar. Em significados.
Parei. Olhei-nos no tempo e vi-nos em unidade. Em alegria e carinho. Em toque e pele. Lábios em sorriso. Uma casa única, audível, sensível. Líquida. Quadro distante de uma realidade alheia.
Falei-te. Gritei-te para dentro da pele. Mas eram os teus silêncios que habitavam dentro de ti. Não eu. Não as minhas palavras que não te alcançavam. No profundo.
Pensas. Olhas-me. E de ti monossílabos. Palavras nuas. Isoladas. Em ardor e escudo terrífico. Habitas um lugar longínquo. Em abismo. Conjunto penumbra, lento de várias mortes. Onde não estou. Nunca estive. Nem o banco. Nem tu.
Falei-te. Disse-te do amor. Mas tu (já) não eras mais do que um amontoado de silêncios. Em acumulação. Delírio de significantes. Por saber.
O pão permanecia em cima da mesa. Semi-cortado. A mesa era a mesma e o banco também.
(tábuas velhas - dizias tu). E eu, olhando para elas, só nos via em vida. Tu: o pão fresco, saboroso, ainda morno. Eu: A mesa que te dava suporte. E o banco(?), algo que estava por ali. À procura de se encontrar.
Delírio (meu) de significados.
Tu eras o pão, a mesa e até a própria faca. Tu própria. Apenas. Só. Em autonomia. Não nós.
E eu, mais não era senão o banco. Perdido. Sem função (para ti). Na tentativa de me encontrar. Em significados.
Parei. Olhei-nos no tempo e vi-nos em unidade. Em alegria e carinho. Em toque e pele. Lábios em sorriso. Uma casa única, audível, sensível. Líquida. Quadro distante de uma realidade alheia.
Falei-te. Gritei-te para dentro da pele. Mas eram os teus silêncios que habitavam dentro de ti. Não eu. Não as minhas palavras que não te alcançavam. No profundo.
Pensas. Olhas-me. E de ti monossílabos. Palavras nuas. Isoladas. Em ardor e escudo terrífico. Habitas um lugar longínquo. Em abismo. Conjunto penumbra, lento de várias mortes. Onde não estou. Nunca estive. Nem o banco. Nem tu.
sábado, abril 02, 2016
NUNCA EM MIM A RÉSTIA DO TEU NOME
A paixão é já uma palavra antiga na memória do meu corpo, e a luz que sempre trazias e com que me multiplicavas é a mesma que agora me divide. Fala-me. Chama-me. Mas não me digas do meu nome na tua boca. Porque há na boca palavras aninhadas. Empedernidas pelo tempo. Que não querem ser proferidas de viva voz. Eu digo-te: a minha luz és tu. Mas o que é a luz? Por que palavras se mede o tempo da paixão? Tu não sabes. Sempre adormeceste primeiro e era eu quem me perdia no tempo da contemplação. Sonhavas longe enquanto repousavas das curvas do meu corpo. E eu era o sonho.
Passa ao longe um barco. Devagar. Eu seguro a luz com ambas as mãos num abraço total dos momentos. Mergulho em mim. Já não te sinto. Divido-me. Divides-me. E no frapé ainda a garrafa virada. O gelo derretido no tempo futuro e os copos em ausência. Fragmentos de passado. Como tu. Sou agora um corpo de ausências absolutas. Que te imaginam. Que te sonham. Que gritam baixo o teu nome na sombra dos lençóis, cansados dos dias e das noites em branco. Sem os teus lábios no meu ouvido à boca da noite. Sem as tuas palavras no meu ventre. Sem a réstia do teu nome no meu.
É fria esta luz. Está escuro. E tu agora és só sombra. E tempo. Em falta.
(foto: Mandrake)
quinta-feira, maio 23, 2013
Palavras de ausência
Há palavras.
Várias palavras.
As palavras que nos dissemos
e aquelas que não fizemos nossas em boca
por tanto as sentirmos.
Há palavras.
Muitas palavras, tuas, espalhadas pela casa.
E há o meu nome,
proferido em duas pela tua boca
que não mais irei ouvir.
Há palavras.
Todas as palavras.
E há todo este silêncio, a escorrer pelas paredes
na direcção da tua imagem, emoldurada.
(no dia do meu aniversário, as minhas palavras para ti mãe)
Várias palavras.
As palavras que nos dissemos
e aquelas que não fizemos nossas em boca
por tanto as sentirmos.
Há palavras.
Muitas palavras, tuas, espalhadas pela casa.
E há o meu nome,
proferido em duas pela tua boca
que não mais irei ouvir.
Há palavras.
Todas as palavras.
E há todo este silêncio, a escorrer pelas paredes
na direcção da tua imagem, emoldurada.
(no dia do meu aniversário, as minhas palavras para ti mãe)
quinta-feira, janeiro 24, 2013
Pai
Diz-me outra vez.
Diz-me onde fica o início de todas as coisas.
Diz-me onde começa o sorriso e como nasce uma flor.
Diz-me onde começa um abraço e como nasce uma cor.
Diz-me onde começa o amor e como nasce uma canção.
Diz-me pai.
Diz-me onde começa a voz e como nascem as palavras.
Diz-me onde começa um olhar e como nascem as certezas.
Diz-me onde começa a ausência e como nascem as tristezas.
Diz-me pai.
Diz-me onde eu começo e tu acabas.
Diz-me onde o meu nome é mais, senão
no momento em que nasce o teu.
Diz-me onde és apenas tu, e não um todo eu.
Diz-me pai.
Diz-me outra vez.
Que eu quero de novo ser menino,
- em casa e outra vez pequenino -
aconchegado nos braços do meu herói.
terça-feira, outubro 04, 2011
(in)existência
Não mais o tempo, nem tu, que lentamente te foste esfumando dos (meus) dias.
Sabia-te viva, porque ainda te sentia em mim.
Sabia-te viva, porque ainda te respirava nos ecos que (agora noutros) reflectias.
Procuravas-te. Sentia-o.
Procuravas-te, enquanto te desprocuravas de mim.
Tu existias algures.
Longe de mim.
Longe das minhas palavras paredes meias com o meu silêncio, que tu (me) impunhas.
E eu, eu aos poucos e poucos fui deixando de saber se ainda me existia em ti.
Vou infinitas vezes aos lugares de nós, com medo que me fales e eu não te ouça.
Com medo que me fales e eu não te responda.
Com medo de perder as tuas frases com palavras para mim e não tas devolva embaladas em palavras minhas para ti.
E que tu, sentindo as minhas portas fechadas, limpes os pés ao tapete pela última vez, antes de embrenhares pelos caminhos da minha ausência em ti.
Vou infinitas vezes aos lugares de nós, mas não encontro a tua voz nos lugares da nossa existência.
Estás num lugar longe de mim.
E eu, muitas vezes imagino-me a esticar (muito) os braços, até ao ponto de te tocar.
Atravesso o teu nome e chego a acreditar que te toco.
Com a ponta dos dedos. Apenas. Ao de leve.
Como um sussurro, por os braços não esticarem mais.
Tão leve que tu não sentes.
Tão leve que tu não me ouves.
Então, abro a boca e recolho o teu nome para dentro de mim, onde te grito.
Tantas vezes te grito.
E tu longe. No teu estado de silêncio.
No imenso desejo de te falar, estive para te enviar uma carta.
Estive para te escrever a palavra amor e te dizer um beijo.
Mas eu não sei se (ainda) a caixa de correio aberta para as minhas palavras.
Mas eu não sei se (ainda) a morada correcta.
Se em risco de outro alguém se apropriar dela.
Se apropriar da minha palavra e ficar com o meu beijo.
E o meu beijo que é só teu e a minha palavra que é só tua, não os quero na boca de outro.
E por isso não a envio.
Deixo-te na tua existência longe de mim.
No teu estado de silêncio.
E levo-te comigo. Sempre.
Guardada como um segredo que se fecha dentro daquela palavra, com o selo daquele beijo. Tão nosso.
...
Nunca as palavras foram um tão grande excesso.
Nunca o silêncio, um tão imenso vazio.
terça-feira, setembro 13, 2011
Excerto "A Vida nos Dias"
Na apresentação do passado sábado, Miguel Leitão brindou-me com duas leituras expontâneas, de segmentos do livro.
As leituras na sua voz, na voz de outra pessoa, trouxeram-me uma sensação diferente, num misto de emoção.
Partilho aqui com todos um dos segmentos escolhidos, juntamente com um agradecimento ao já referido autor das leituras:
"O tempo já é muito. Já não me sei. Perdi-me totalmente de mim. Não me tenho. Imaginei-me (sonhei?) a correr numa praia de mão dada contigo. Senti o teu rosto, o teu corpo, o seu odor e o teu sorriso repousado em mim no embalo de um olhar. Os nossos pés descalços num embrenhar de areia, com frinchas de dedos em arrepio. Um odor a mar, num gélido salgado de ossos. Um odor acre a maré baixa com uma floresta de rochas a descoberto. Desviámos aqui. Saltámos ali. Mais um passos de cautela um pouco mais à frente. E o teu apertar firme de mão segurança. De mão equilíbrio. O mergulho ao fundo e a nossa lentidão no chegar. As nossas palavras abertas para o outro e o mundo à nossa volta. Uma floresta de rochas com o mergulho ao fundo. Desvios sucessivos. Apertos da mão. Mergulho ao fundo. Mergulho sempre ao fundo. Mergulho que não chega. Avançando. Por entre apertos de mão e desvios de floresta. Mergulho cada vez mais ao fundo. Mão que se larga. Rosto que se procura. Um tropeçar em algo. Um corpo. Ricardo em mergulho. Tu longe, muito longe. Acordei(?)".
As leituras na sua voz, na voz de outra pessoa, trouxeram-me uma sensação diferente, num misto de emoção.
Partilho aqui com todos um dos segmentos escolhidos, juntamente com um agradecimento ao já referido autor das leituras:
"O tempo já é muito. Já não me sei. Perdi-me totalmente de mim. Não me tenho. Imaginei-me (sonhei?) a correr numa praia de mão dada contigo. Senti o teu rosto, o teu corpo, o seu odor e o teu sorriso repousado em mim no embalo de um olhar. Os nossos pés descalços num embrenhar de areia, com frinchas de dedos em arrepio. Um odor a mar, num gélido salgado de ossos. Um odor acre a maré baixa com uma floresta de rochas a descoberto. Desviámos aqui. Saltámos ali. Mais um passos de cautela um pouco mais à frente. E o teu apertar firme de mão segurança. De mão equilíbrio. O mergulho ao fundo e a nossa lentidão no chegar. As nossas palavras abertas para o outro e o mundo à nossa volta. Uma floresta de rochas com o mergulho ao fundo. Desvios sucessivos. Apertos da mão. Mergulho ao fundo. Mergulho sempre ao fundo. Mergulho que não chega. Avançando. Por entre apertos de mão e desvios de floresta. Mergulho cada vez mais ao fundo. Mão que se larga. Rosto que se procura. Um tropeçar em algo. Um corpo. Ricardo em mergulho. Tu longe, muito longe. Acordei(?)".
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