sábado, agosto 26, 2023

O MESMO AR

Com os dedos tocando-se sobre a mesa, olho-te nos olhos e é-me impossível não sorrir naquele instante que é todo o meu mundo. Olhar-te é um diálogo intenso. Absorvente. Onde qualquer palavra é excesso. São ainda tantos os nadas que nunca te disse. Digo-os direto para os teus lábios que articulam também nenhuma palavra. Como em eco. Como quem leva no bolso as chaves da mesma porta. Para as usar no final de todos os dias. Para o repouso dos corpos sob o mesmo lençol. Respirando o mesmo ar.

Sobre a mesa trocamos dedos. Pelas suas pontas tocamo-nos por inteiro. Em harmonias de silêncio. Plenas. Formas incompreensíveis de Amor para os demais. Quem nos olhasse não veria mais que dois silêncios. E no entanto, os toques em toda a sua suavidade, não são menos que desejos intensos. Violentos até, na sua tão grande força de amar. No desvario de todos os sentidos ouço os teus lábios mudos chamar por mim. O teu cabelo ondular brisas de corpos. A tua pele fulminar loucuras nossas. Orquestra de sentidos. Em apogeu. Como se não ali. Como se não mais nada.

As mesas contigo são mundos. Quero as mesas todas.
Quero as tuas mãos sobre elas todas.
E os teus dedos. E os teus olhos.

Respirando o mesmo ar.
Sempre.

sábado, agosto 19, 2023

EM PERTO

Parar. Recompor os caminhos. Evidenciar importâncias e descartar pormenores. Daqueles. Que não nos fazem. Que não são os que nos definem. Mas que tantas vezes assumem a primazia sobre nós. E passamos mais nós a ser eles do que eles a não sermos nós. Respirar. Relembrar propósitos. Reordenar vivências. Música em fundo. E tu em perto. Tu sempre em perto.

Um pássaro pousa na varanda. Olha-me fixo. Diria que calmo. Agitando todos os outros que vivem em mim. Retirando-te detrás da cena (de onde nunca sais). Trazendo-te às palavras. Nesta distância próxima em que estamos, fazemo-nos dois. Mas no entanto, ainda assim, como se todos os pássaros se unissem, os nossos corpos crescem. Fazem-se caminho. Unificação. E são propósito. E são vivência. E tu em perto. Tu sempre em perto.

Olho o horizonte e tento perceber o que os teus olhos vêem neste momento. Fecho os meus para voar o futuro. Com o pássaro vou onde ainda não estamos. Onde tudo é (também) sobre ti. Uma brisa eleva-te. Segue-te até esse lugar onde sempre acontecemos. Onde a música nos diz segredo e onde nos sabemos. Atravessamos impulsos. Bebemos olhares. E somos respiração. E canto. E sangue. Masculinidade de pensamento. Em estremecimento.

Agarra-me agora as mãos e diz-te outra vez minha.
Leva-me onde quiseres. A todos os lados ou a lugar nenhum.
Mas faz (uma vez mais) tudo recomeçar.

Contigo em perto.
Dentro de mim.

sábado, agosto 12, 2023

EM VOZ BAIXA

Nestes tempos de ausência, aprendi a partilhar com a minha sombra o vazio que deixa o toque inexistente da tua mão na minha. O silêncio da tua voz do outro lado de nenhum telefone. O nascer de nenhuma lua que te consiga trazer, sobre o meu nome. E confesso. Confesso que sentir-me rodeado do teu nada, me assusta. Assusta-me não te saber. Assusta-me sentir-me permanentemente deste lado aberto de uma porta fechada. Em incógnita. Em tentativas vãs de adivinhação.

Olho os restos das tuas mãos que repousam sobre as minhas e pergunto-me que cor pode ter hoje o teu nome. Esse. Que repito a cada dia. Em voz baixa. Como uma prece. Para que não morra em mim nenhuma das palavras que te nomeiam. Porque há palavras que por não as articular morrem na minha boca. Amo-te. Quero-te. São nestes dias verbos incomuns. Sem qualquer cor. E eu não consigo fingir que esta permanente espera por ti, me suspende. Deixa como que esquecido numa qualquer dobra de tempo por desfazer.

Porque tu sabes. Tu sabes que há tempos que não passam. Que ficam sempre. Mesmo que não os queiramos contar. Por isso nestes dias conto pedras. Conto mares. Nuvens. Porque esses não são tempo. Nem acumulam. Apenas têm a existência do segundo em que o faço. Enquanto o reflexo da minha imagem numa qualquer água não vem acompanhado da tua. E nele consigo ver. Ver que tu és mais eu do que eu alguma vez fui.

Então corro.
Corro a fechar este meu lado aberto da tua porta fechada.
Não vás tu nela, encontrar o caminho de saída.

sábado, agosto 05, 2023

LINGUAGEM PARA AMAR

Parecem-te fortes estes braços que te sustêm. Que num abraço são capazes de te erguer. Elevar-te acima de ti. Ser-te proteção. Segurança. Mas é porque não sabes. Não sabes quando a palavra Amor. Ou a palavra Beijo. São meras fibras de sementes. Apenas com a força de promessas do porvir. Que se questionam com a expectativa do futuro. Em incógnita. Dúvida.

Parecem-te firmes estas mãos que te agarram. Que seguram as tuas com a firmeza de porto. Te são garantia. Certeza. Eternidade. Mas é porque não sabes. Não sabes quando a palavra Pele. Ou a palavra Boca. São apenas fragilidade de dedos. Incerteza de palmas. Na constante dúvida do saber. Do ir acontecer.

Parece-te firme este tronco que te envolve. Te transmite calor. Aconchego. Batidas. Mas é porque não sabes. Não sabes quando a palavra Amo-te. Ou a palavra Quero-te. É apenas tremor. Inconstância. Debilidade. Doce devastação interior.

O amor no seu tempo futuro, é terrivelmente profundo. Desconstrução. Linguagem para amar. Sem base de saber. Sem perdão na roda da vida. Porque apenas expectativa. Porque apenas quereres. Que não seguem outra lógica que não a dos desejos. Pensar com delicadeza. Agir com ferocidade. Em nome de todas as loucuras contidas. Por sem ti. Aqui. Agora.

O meu corpo é construído pelas palavras. São elas que o fazem. Construído com base em sílabas únicas. Ainda que comuns. Todas elas te dizem. Todas elas te chamam. Sem tempo. Sem lugares. Porque em mim tu existes. Em frases (in)completas. Em palavras. Sílabas. Até à mais ínfima letra.

Em contínua espera.
Pelas tuas.

sábado, julho 22, 2023

UMA VIDA MAIS

Sonho que voo. Sobre a vida abro asas e voando alto encontro um Deus no qual não acredito. Mas ao qual peço: Preciso de uma vida mais. De todas as viagens voltamos sempre mais velhos do que quando partimos. E eu já tenho muitas. Acumuladas. Por entre a chuva, trago a lua que te entrego em mãos, sob o olhar atento do urso que carregas ao peito. Com o seu lado B percorro a casa. Embrenho nos corredores e atrás de cada porta encontro pedaços que escondes. Que não são meus. Que não sei se são (ainda) teus. Ou sequer se são mais que fiapos de bandeira. De um campo de rosas longe no tempo. Perdido. Em lugar incerto.

Preciso de uma vida mais. Mais um ano, um dia, um segundo. Viver-te é tão intenso. E eu preciso de tudo. Uma hora do teu olhar. Um minuto das tuas mãos. Um segundo da tua pele. Onde as viagens sempre recomeçam. Onde com ferocidade sempre me (re)encontro. Consecutivamente. Infinitamente. E onde te peço que venhas comigo. Porque tenho medo que um dia não. E eu fique para sempre na noite escura. Numa viagem sem destino. Num quarto com ecos de passos alheios a ti. Num perfume comum. Que não o teu.

Não me olhes assim. Tu sabes-me. Sou o mesmo de sempre. Cada vez mais assim. Cada vez mais aqui. Sei que decresço. Que todos somos tempo em falta. E que por vezes nada mais carrego senão loucuras devastadoras acumuladas em lágrimas suspensas. Em choros que faço pequenos. Em segredo. Mas tudo o que sou e trago cabe nas tuas mãos. Quando (em carinho) seguram as minhas. E me engolem as montanhas. E me fazem ar. E transformam as lágrimas em gotículas de orvalho. Que deposito com um beijo, nos lábios do teu sorriso. Levantando novo voo.

Uma vida mais. Preciso de uma vida mais. Apenas uma é demasiado pouco.
Para todo este sentimento. Para todos os regressos.

Para nos viver.

sábado, julho 15, 2023

AGORA SOMOS SÓ NÓS

Como um acto contínuo, inevitável, (e por vezes até) absurdo, volto a ti. Agora que os telefonemas diminuiram de frequência. Que as mensagens vão rareando. Que as vidas continuaram (menos a tua). Que os pensamentos aos poucos se foram desviando. Agora filho, agora somos só nós.

Há tantas coisas que acredito que saibas que sinto e que não te sei dizer. Doem em mim todas as palavras que te ficaram a faltar. Todos os metros de caminho que te ficaram por percorrer. O não saber com que pensamento adormeceste. E (num acto egoísta) o acreditar que chamaste por mim, como eu não me cansei de fazer por ti, quando soube que partiras.

- Foi o meu nome que o teu coração articulou na sua última batida?

Agora somos só nós. E o tempo não passa. Permaneço a saber de ti. A ouvir aquelas palavras a perfurar a minha mente. A estilhaçar ecos por todo o corpo. O peito a apertar. As pernas a falhar. E esta sombra que se espalhou dentro de mim. Semeou escuridão. Encobriu todos os prazeres. Relembro os pedidos que em menino me fazias e eu não podia satisfazer.

- Fui eu a tua última e maior falta?

Agora somos só nós filho. E esta dor que é tanta. Doem-me as culpas todas que sinto. Doem-me as memórias que me fazem sorrir. Doem-me as mãos que seguram esta tua foto. Em que correndo ao meu lado olhas a meta. Marcando o ponto a que iríamos chegar juntos. Como eu pensei que sempre aconteceria. Até eu não. Eu. Não tu. Porque assim o determina o normal da vida. E agora, sem ti, como conseguirei eu chegar onde quer que seja?

- Fui eu a tua maior dor na partida?

Agora somos só nós.
E eu não sou mais que um mar de dúvidas. Em tumulto.

Em vazio.

sábado, julho 08, 2023

O MEU SILÊNCIO

O meu silêncio tem o teu nome.
É assim, com este que é o meu sentimento mais profundo. Como os sapatos carregam a poeira dos dias até que a escova a remova, assim o meu silêncio carrega as sílabas que compõem o teu nome. Até que um beijo as faça luz. E penso. O que são as palavras? A que te nomeia é simples. Pequena. Duas sílabas apenas. No entanto tem esta capacidade de gerar convulsões no meu peito. Em expectativa. Quase ânsia. Eco de múltiplas loucuras. Até ao momento em que as bocas estão frente a frente na distância de um beijo por acontecer. Explodindo nos lábios sensações antecipadas. Em desejo.

O meu silêncio tem o teu nome.
Guardo esse silêncio nos recantos de mim. Deixando-o assim. Meu. Até ao momento em que tu. Em corpo. E como um lobo dando sinais da sua fome, tento arrancar pela pele toda a saudade fazendo-o destino. Absorvo-te com o olhar. Um ombro em súplica. Pescoço em espera. Ventre em desalinho. Passo pelo decote do teu corpo que me chama, mas é sempre no olhar. É nesse olhar onde nem sempre chegam as palavras, que começo toda uma revolução. Junto com as tuas mãos. Que me agarram. Fazendo de mim um destino sem dor. Em que te aportas. E me segredas ser minha. E que aquele é o momento. E nada mais importa.

O meu silêncio tem o teu nome.
É assim, com este que é o meu sentimento mais profundo.

Arde em mim no lugar de todas saudades.
Como uma fogueira dos segredos.
Que nunca se extingue.