sábado, setembro 24, 2016

INTIMIDADE

Como uma carícia num manto de relva fofa, procurei as tuas mãos em pontas de dedos. Um ritual macio. Mecânico. Como hábito adquirido ao longo dos anos. Por vezes, era o bastante para que todos os sons se aquietassem. Havia apenas, aquele (pequeno) toque de pele. Sorrias. Por vezes olhavas-me. Outras, apenas inspiravas um pouco mais fundo. E eu sabia-te. Em comunicação muda. Em pele. E éramos brisa. Em tempo grande.

Depois vieram os pés. Sob os lençóis. Novo toque de pele. Pequeno. No silêncio. E éramos calor. Em tempo grande. Que pedia os braços. Que nos deixava em saber. Do outro. Mesmo na penumbra. Em escuro. E odores.

E entre nós as palavras. Sempre as palavras. As ditas. Em muitas horas. As que ficam por dizer - mas nunca por saber. E todas aquelas que não sendo nossas, nos dizem.

Somos matéria intemporal. Pele em doses pequenas. Em saberes. Em tempo grande.
Monólogos a dois. Em intimidade maior.

sábado, setembro 17, 2016

DIZER AMOR

Retenho sons de ti. Alguns articulados em palavras. Outros em gestos. Em pupilas dilatadas. Fixas. Em aconchegos. E quando te quero dizer Amor, são apenas gestos que penso. Na flor em cima da mesa. Na reticente vela. No odor da tua pele. Teu cerrar de pálpebras.

Sei-nos numa canção. Lá longe no tempo. Sei-nos numa praia em primeiro beijo. Em tempos de projectos. Sonhos. Medos também. Alguns. Sei-me num querer. Intenso. Imenso. E sei-me em ti. Em Amor. Esse. Que te queria dizer. Mas não consigo.

Como te posso dizer Amor, se é no silêncio que ele existe maior?

Como se escreve felicidade? Como se diz Instante? Entardecer? Brisa? Morada? Ou infinito? Numa voz? Em duas? Quantas vozes são precisas para (te) dizer? Não sei. As palavras são tão imperfeitas. Carregam tantos significados. Calma e serenidade não são a mesma coisa. E eu não sou essa coisa. Em significado. Ou em essência.

Eu sou tudo. A mão que te suporta na dor. O som da gargalhada que te eleva. E o ferro que (mesmo não querendo) te pode ferir de morte. Esse sou eu. Assim. Porque imperfeito. Como as palavras. Palavras. Muitas. Que dizem tanto. Mas que não servem para eu te dizer Amor.

Porque eu, quando digo Amor, é apenas uma coisa que quero dizer: Tu.

sábado, setembro 10, 2016

TODOS OS DIAS FOSTE OUTRO

Faz sete anos que chegaste.

Lentamente (como a árvore que cresce), foste entrando. E sem pedir permissão (assim como o tempo), foste ficando. Como uma hera foste-me enleando, enredando-me no costume da tua presença. E eu fiquei menos só. Já não sabia se era a mim que o sol beijava primeiro, ou se à tua presença em mim. Que já não me distinguia de ti.

O tempo foi passando. Tu foste crescendo. Em idade. E em mim.

E tu sempre cumpriste. Todos os dias foste outro. Com uma alegria genuína. Ímpar. Com as tuas palavras sempre frescas. Sombra de árvore. Chilrear de pássaro. Em palavras. Em afectos. Gestos indizíveis. Em colo. (porque não?) Em amor.

Eu sabia que este dia chegaria. Sabia que chegarias ao final da tua jornada e partirias. Qual pássaro em bando. Mas secretamente, mesmo sem saber, fui alimentando. A esperança. (embora te soubesse andorinha). Que o teu bando fosse de cegonha. E decidisses ficar.

Faz dois anos que partiste.

Todos os dias te lembro. Todos os dias te falo. Ainda que a tua voz não cá.
Depois de ti vieram outros. Vários. Nenhum ficou tanto tempo quanto tu. Nenhum me aliviou da minha solidão de ti. Nenhum outro foi água. Ou brisa. Nem deixou raízes. Foste único.

Todos os dias foste outro.
E eu, sem ti. Fiquei.

sábado, setembro 03, 2016

GRANDE O MAR

É grande todo este mar à minha frente.

Depósito de memórias. Alegrias. Temores. Tristezas também. Com fumo de cigarro. (de mim que não fumo). Os rochedos que tão bem conheço. O toque desta areia. Olhar longe.

Com aquele dia. Negro. Súmula de vida. Vim aqui para me perguntar. Para me encontrar. Sem saber se continuava. Ou desaparecia. Quando a tua voz rouca

- Estás sozinho?
Quando isso era de todo impossível. Tantas as vozes dentro de mim. Mas tu não sabias.

- Que fazes aqui?
E eu sem saber o que te dizer. Procuro-me. Mas não me encontro. Só. Perdido na tua voz. Rouca. E o meu silêncio. De pés enterrados na areia. Húmida. Em arrepio de frio.

Olhavas-me. Curiosa. Por entre os teus cabelos. Pretos. Longos. Ondulados. Misturados com a tua voz. Masculina. No teu corpo feminino. Bem trabalhado. Como a tua voz. Que me atraía.

Sentaste-te a meu lado e ficaste comigo a olhar o mar. Este. Todo. Grande. Que se estende à minha frente. Perguntei-me se seria o mesmo. O que tu vias. Quando uma gaivota ao longe. Teus olhos acompanharam-na. De encontro aos meus.

- Nunca te vi por cá. Costumas cá vir?
E eu ali. Todo nos teus olhos. Com toda a minha vida. Naquele momento acumulada. Em pressão. Entre as mãos. (estranhamente não me lembro das tuas) Com o meu corpo a responder por mim. No meu silêncio. No teu sorriso.

Afastado, um homem chamou-te.

- Tenho de ir. Sou a Laura. Estou sempre por cá. Aparece.
E de um salto correste em direcção a ele. Quando finalmente a minha boca em movimento. Para te falar. Dizer o meu nome. Despedir. Mas nenhum som.

Voltei. Várias vezes. Não mais te encontrei. E até hoje não sabes.
Que os meus dias não terminaram. Que continuo por cá. E ainda me lembro de ti.

sábado, agosto 27, 2016

O QUE FICA

Nunca é a mesma luz que me ilumina. Muda a cada dia que passa. A cada hora. Cada minuto. Como eu. Que já morri tantas vezes. E nunca é o mesmo eu que fica. Sempre outro. Como as sombras. Que se acumulam. Que não mudam. Amontoam-se. Espalham-se.

Já morri tantas vezes.
Lembro-me bem da primeira vez. Uma espingarda de pressão. Um pequeno pássaro na minha mira. O disparo. A queda. Do pássaro. E de mim. Ambos tombados no chão. Em agonia. E a interrogação na minha mente: Porquê? Mergulho em mim na procura de razões. A ausência do encontro. Devastação de ser. E nunca mais o mesmo.

Já morri tantas vezes.
Depois as pessoas. Várias. Muitas. Uma a uma. Em choque. Em dor. Cada uma delas levando um pedaço de mim. E as sombras a ganhar volume. A espalharem-se. E eu sempre na penumbra. Com alguma procura da luz. No meio do medo. Esse. Que me fala. No silêncio. Com silêncio. E nele eu sei. Eu sei que a loucura tem espinhos. Que constantemente me ferem. Que constantemente me tentam. E resisto.

E eu, que já morri tantas vezes, eu sei.
Sei que a vida inteira é um acto de deixar partir. Mas eu não gosto de partidas. Nunca estou preparado. Muito menos dessas. Sem momento de despedida. Dos outros. Ou de mim.

sábado, agosto 06, 2016

SEM MIM

Aqui estou eu outra vez. Frente a esta porta. Sempre a mesma porta. A chave na mão. Olhos no chão. Pés parados. Tudo tão pesado. A vida em atraso. Querer abraçar-te e não ter coragem. Aqui, todo eu sou nojo. E como que ardo por dentro. Chega-me o cheiro a café. Com ele a imagem da (nossa) cafeteira. E eu um fraco. A vida como justificação. Em mentira. Eu todo culpa. A tua imagem em mente. E por isso parado. Sem coragem para entrar. A imaginar-te em palavras:

- Correu bem no trabalho?
E eu com os olhos em fuga a responder-te que sim. Que o trabalho é muito. Por isso o chegar mais tarde. A mentira a pesar. E o medo que a vejas nos meus olhos. Mais ninguém me conhece assim. Tu em aproximação. E o receio maior:

- Que cheiro é este?
E eu não saberia o que te responder. Em denúncia. Por isso cheiro uma vez mais a minha roupa. Em procura. E só o meu cheiro. Em descanso. Junto com o cheiro a medo. Que só eu sinto. Pelo menos acho que é assim. Que só eu. O medo de tudo. E o desejar não o ter feito. Arrependimento. E o saber que amanhã será igual. É sempre igual. E o cheiro do café. E tu lá dentro. E eu fora. Em culpa.

Tivesse eu coragem. Seria outro.
Não sem ti. Nunca sem ti. Sem ela. Ou então… sem mim.

sábado, julho 30, 2016

DAS MÃOS

As pedras são locais de repouso. Nas sombras.
Sentados as mãos unem-se. Lugares de certezas. Em carícias.

Das tuas, eu falo-te em árvores. E tu sorris.
Pensas na força do tronco, enquanto eu te quero dizer da segurança das raízes.
Tu falas-me do meu rosto. E eu sorrio.
Penso em beleza, desconhecendo do que me queres dizer.

Ao cimo os pássaros. Com eles somos lugares de sonhos.
Não sabemos do que nos dizem no seu chilrear. Batem asas e mostram-nos liberdade.
Um nunca estar no mesmo lugar. Busca contínua.
Há um ninho perto de nós. E falas da vida a crescer.

Eu digo-te das tuas palavras. E tu sorris.
Pensas no conteúdo em sabedoria, enquanto eu te quero dizer do carinho em profundidade.
Falas do meu sorriso. E eu sorrio ainda mais.
Penso em meninice, desconhecendo do que me queres dizer.

Vida em conjunto. Duas peças de um mesmo jogo.
Cada um sabe o que o outro fala. Não sei se algum sabe do que o outro diz.
As palavras são como pássaros. Voam livres.
Mas carregam significados diferentes em cada um de nós.

Quando eu te digo amor, tu ouves êxtase.
Quando tu me dizes para sempre, eu ouço felicidade.