sábado, julho 01, 2023

NA NOITE

Imersos na noite, minhas mãos deslizam sobre a tua pele procurando pelo teu apaziguamento. És um conjunto de pequenas dores. Sonos em falta. Estranhas palavras que acumulas nos poros. Te prendem as vontades. Arrefecem a vida e te agigantam sombras. Pelas minhas mãos, que te percorrem o corpo procurando pelas dores físicas, expeles as outras, em pequenos suspiros. Os teus, que libertas do íntimo, e os das minhas mãos que suspiram por ti. Que percorrem o teu corpo, mas que era rompendo vontades que queriam estar. Em diálogos surdos de bocas. Em profundo. Em calor.


Deitada deixas-te ir. Os caminhos das minhas mãos elevam-te. Resgatam-te dos meandros dessas pequenas loucuras. Enquanto eu inverto. E mergulho em vontades reprimidas. De te ter. Por completo. Olho-te nesse teu disfrute. Vejo que o teu rosto se abre. Que a tua luz, a pouco e pouco, vai chegando. Voltando a casa. E sinto-te a ir. Já não és tu que estás comigo. Mas o que restou da purga. Apaziguada. Como quem diz sereno. Quase paz. É agora o teu sono que me faz companhia. Me fala de ti pelo teu corpo que permanece em repouso. Inerte. Muito tempo. Como quem não tem do que fugir. Como quem fica porque quer ficar. Como quem está em casa. Em aconchego.

Deito-me ao teu lado e num abraço, cubro-te o corpo. Sincronizo o meu respirar com o teu. E ali. Naquele momento. Somos um só. Em existência. Em físico. E na minha (enorme) vontade de ti. Que permanece desperta. Não dorme. Sentindo-te. E que num repente se agita quando a tua mão, num movimento (inconsciente?) procura pela minha. E a agarra. E apertando-a fica. Como barco que se amarra ao cais. E lhe dá a razão da sua existência.

É noite. É já tarde. É já tão tarde.
E eu fico no desejo que ela não acabe.
Que o dia não nasça.
E que nós sejamos assim. Um só.

Até o amanhecer de uma nova vida.

sábado, junho 10, 2023

NADA EM MIM

Nada em mim cresce agora. Distraído com o passar dos dias, não me apercebi do início da queda. Nem das folhas que indicavam que o tempo estava já magoado. O outono chegou e eu continuava. Feliz. A cantar as promessas da primavera. A esperar os sonhos do verão. Como quem ignora que os sonhos podem ser feridas que não cicatrizam nunca. Permanecem sempre abertas. Que nos levam consigo ao lugar mais profundo de nós. De onde tantas vezes queremos fugir. Achando que por simplesmente o ignorar ele deixa de existir. Quando nele todos os dias se morre um pouco. Do seu silêncio.

Quero hoje o teu Olá. Bate à porta do meu corpo e diz-mo. Como sempre o fazes. No fim do primeiro beijo. Mente-me que me queres. Mais uma vez. Diz-me que não tens horas para voltar e que noite será nossa. Para sempre. Que os retratos sobre a mesa irão ser os nossos. E que será sempre o teu, o perfume na escada. O som dos passos que a percorrem. Eu saberei que não é verdade, mas guardá-lo-ei no lugar dos sonhos. Como segredo. Como quando chamas pelo meu nome para dentro do teu corpo. E eu deixo-me ir. Em desejo.

Pergunto-me agora se é assim me despeço de ti. Longe dos teus olhos. Onde está sempre frio. E são agora as minhas mãos que me despem das vestes. Substituindo as tuas. E o teu nome vagueia rente aos meus lábios. Quase sempre por dizer. Numa quase dor. Na qual aguardo provavelmente o teu regresso. Secretamente. Aqui. Onde é a noite que agora me morde a pele. E me pergunto se o meu nome ainda é articulado em alguma parte do teu corpo. Ou se ele já o esqueceu. Desfigurado. Pelo cansaço de todas as esperas.

Nada em mim cresce agora.
Doem-me os dedos sobre as palavras.
E sou consciência, que o inverno chegou.

sábado, junho 03, 2023

ACORDA-ME AGORA

Nas intermitências da vida, desta que é a nossa, deixei-me encurralar. Eu, que nunca quis ficar presa. Eu, que nunca abdiquei de voar. Fiquei. E durante este ir ficando, fui-me perdendo. Distante de mim. Até à dormência. Até o não querer voltar. Desse lugar onde me fiquei. Ao longo do percurso. Como quem já não quer voltar a casa. Como quem carrega as sombras do caminho. Para com elas encher os espaços (agora) vazios. Todos. E tê-las como companhia.

Por isso, acorda-me agora Meu Amor, e diz-me.
Diz-me que ainda acontecemos. Diz-me que não tenho porque correr. Que a nossa casa (ainda) é a meta. E que já não há caminho a percorrer. E que aqui (ainda) é onde sempre quisemos estar. Mas diz-mo baixinho. Numa língua de carinho. Macia. Com palavras limpas. Não nessa língua suja e estranha, que me atiras. Que me inflama a pele. Me diz todo o inverso das palavras que pronuncias. Como pedras que apanhas do chão. Em ferida.

Acorda-me agora Meu Amor, e diz-me num beijo.
Diz-me que devo ficar. Porque não são os copos que (já não) bebemos. Porque não são as conversas que (já não) temos. Porque não são os carinhos que (já não) trocamos. Mas sim porque (ainda) somos nós. Diz-me que não há nenhum outro lugar onde prefiras estar. Que (também) a tua luz nasce aqui. Que a doçura das palavras não se perdeu. E que ainda somos tudo.

Ou então,
Se o teu beijo já não é capaz de dizer nada disto,
Deixa-me partir.

A ver se ainda não é tarde de mais.
Para me (re)encontrar.

sábado, maio 27, 2023

PEQUENO CRIME

Sem nenhum anúncio chegaste. Trazias nas mãos toda a dor do teu imenso pequeno mundo. E com toda a força nelas o encerravas. Era só teu. Mesmo quando olhavas as mãos vazias em dias de tempestade, e esse mundo não era mais que uma superfície inteiramente líquida. Um mar de ausências no qual mergulhavas. Não para te encontrares. Nunca para te encontrares. Mas para (propositadamente) te perderes. E enquanto ficavas nessa solidão fabricada, eras sempre distância. E frio. Para mim. Por não me conseguires conter nessas mãos, enquanto dançavas descalça uma dança que era só tua. Sobre vidros. E desejavas que a vida não fosse mais que um instante.

Pequeno crime.

Hoje, seguro essas mesmas mãos. Olho-as atentamente enquanto tento abrir caminho por todos os mares. Porque sei que nelas serás sempre tu. Em qualquer lugar. Mesmo que não aqui. Mesmo que não comigo. Porque é nelas que tu existes e onde está a tua essência. Extensão dos teus olhos. Os mesmo que respiro. Em profundo. E através deles viajo como um postal endereçado a um destino desconhecido. Sem importar onde é a chegada. Porque sei que lá (sempre) te irei encontrar.

Já quis ser o teu olhar. Extremidade do teu sol.
Agora apenas quero continuar a viajar nele.
Porque hoje sei que

O meu destino
Sempre serás tu.

sábado, maio 20, 2023

CHEGAS

Esta manhã um pássaro passou. Quase longe. Voava alheio aos teus olhos. Como eu não consigo. (como eu nunca irei conseguir). E no seu voar, senti de perto o teu respirar. Peito oscilante. Realidade dos dias. E mais de perto ainda, esta fome permanente que tenho do beijo da tua boca. Em desejo. Permanente (in)satisfação. E como quem ama as palavras como a um corpo, escrevo-te. Acaricio as sílabas. Deixo que as pontuações sejam topos, e que nelas se abram portas de regresso a esse lago. Ao lugar onde és. E existimos.


Um pouco mais e será noite. Fecha os olhos e sossega. Larga as desventuras à porta do meu corpo e escuta o silêncio. Porque eu quero amar-te na palavra e no corpo. Ser o contrário de tudo o que não é de nós. E na impaciência do teu corpo, cantar-te de dentro de mim o teu nome à boca do ouvido. Enquanto te digo como um segredo, que te Amo. O quanto te Amo. E olhar-te. Olhar-te na dança e no adormecer das pálpebras. E ficar a ver-te dormir. Enquanto os beijos ainda todos na minha boca. Os sulcos das tuas unhas ainda todos na minha pele. O teu odor ainda em todos os meus poros. E ainda com todos eles, numa carícia de olhar, ansiar pelo beijo do acordar. E por isso chamar-te. Uma vez. Duas vezes. Tantas vezes, para dentro de mim. Para que não acordes. Para o mundo não te levar.

Hoje chegaste no voo do pássaro. Ontem foste brisa, som ou odor.
Nunca sei como me vais chegar. Mas todos os dias te espero.
E em todos chegas.

E nunca mais o vazio.
Em mim.

sábado, maio 13, 2023

ACORDAR

 Acordo com o teu nome vindo dos meus sonhos, enquanto na pele transpira a saudade do teu perfume, que a agitação da ausência do teu corpo nela me provoca. É breve o instante em que o reconheço. E a vida é enorme nesse momento. Porque assim são os meus sonhos. Pedaços de ti. Em essência. Nos quais me aconteces em absoluto. E curiosamente sempre em silêncio. Porque não me falas nos meus sonhos? Queria acordar sempre na tua voz, ao invés de imerso nessa matéria efervescente de que são feitos todos os silêncios.

Mas como se as palavras queimassem a boca por dentro, nos meus sonhos não me falas.  Apenas me olhas. Em profundo. Com esses olhos que me absorvem. E nos quais caibo por inteiro. Sem nada em excesso. Talvez apenas os lábios. Esses que se movem para articular nenhuma palavra. Só para os beijos que vou deixando. Em pingos. Nos caminhos da tua pele. Enquanto na minha desenhas sem querer, em gestos que te escorregam dos dedos, inacabados mapas invisíveis. Sem nunca me dizeres qual é o destino que eles servem.

Seguro-te então o rosto entre as minhas mãos. E nos lábios abres um sorriso do tamanho do medo que tenho de te perder, enquanto sinto que o dia começa a despontar. E como se caíssem as sílabas do final de todas as palavras, a imagem começa a perder-se. Os olhos abrem-se. E nesta hora em que as ruas estão desertas, e também lá fora o silêncio impera, é apenas o teu perfume aprisionado na minha roupa que me serve de ponte até ti.

Um novo dia tem início.
Os lençóis estão amarrotados.
E todo o (teu) silêncio é maior que o mundo.
E violência.
De nenhum poema.

sábado, maio 06, 2023

SOMBRAS E LUZES

Alinho as palavras que escolho criteriosamente, uma a uma, com a esperança que elas cheguem a ti. Quero fazê-las melodia. Dar corda à caixa de música que tens no peito. Quero que sejam pauta de orquestra. Alegria de cordas. Esplendor de sopro. Embora saiba que nem todas as palavras são música. Nem todas notas. Somente palavras. Letras alinhadas como estas. Algumas até só espaços. Silêncios. E eu que não sou maestro, que fico triste com o teu silêncio, apenas tenho este desejo de música. Em ti. Explodindo-te sorrisos nos lábios. Enquanto nos meus trauteio a melodia do teu nome. Em segredo.

Vem. Vamos sair esta noite. Traz as mãos vazias e os braços livres. Vamos juntos olhar a lua. Sabes que é na noite que ela mais brilha. É na penumbra que ela melhor é conforto. Deleite. Referência. Sei que vamos olhar lados diferentes. Mas não importa. Só assim a olharemos no seu todo. E então fala-me desses (teus) lados. Que (só) tu vês. Fala-me das (tuas) sombras. Descreve-me as luzes. Os cheiros que delas imaginas. E onde mais te tocam. Se nas tuas sombras, ou nas tuas luzes. Se no teu refúgio, ou no olho da tempestade. Que (me) és.

E depois diz-me.
(para que eu saiba o que fazer com tanto Amor)
Diz-me em qual desses lugares mais me queres.

Para eu (finalmente) saber, onde morar.