sábado, fevereiro 24, 2024

DEIXA QUE TE AME SEM PALAVRAS

Deixa que eu te ame sem palavras.
Encontro-te nos meus lábios imensa de tudo o que não tenho. Um simples deslize entre o pouco e o nada. Acompanho-te no suspiro fundo que me colas ao rosto. Enquanto encaixo devagar na curva dos teus desejos. E toda uma prosa selvagem corre solta para ti. Sem palavras. Com sede de tudo. No silêncio dos teus sentidos a segredar o toque dos meus. Em todos os instantes em que me esperas. E toda me recebes. E me bebes até à última gota de sol.

Digo-te: Há flores que dependem de ti.
E tu guardas esta minha confissão com a chave da tua boca. Enquanto esmagas as palavras com o teu olhar denso. Com impronunciáveis emoções. E me guardas. E me demoras em ti. Com a inexatidão de um desejo anunciado que ferve na alma. Com o meu nome a escorrer em cada veia. Com as marcas invisíveis de um tempo sem medida.

Quando foi que as tuas mãos se cruzaram com as minhas e ficaram?
Quando foi que começaram a sorrir em silêncio?

Estão ainda húmidas as toalhas que nos secaram os corpos depois do Amor.
Estão ainda húmidos os lábios que acolheram o calor dos teus.

Porque todos os teus beijos são eternos.
E nunca morrem na minha boca.
Em nenhuma palavra. 

sábado, fevereiro 17, 2024

CASA

Permanecemos aqui. Nesta casa em que nos sendo, não nos diz.
Casa com paredes de silêncio. Chão aberto ao tempo. E tudo aquilo que jamais será dito. As portas que se fecham atrás da tua sombra. E a partilha de todas as nossas ausências. Que fazem todos os vazios. Dos toques inexistentes da tua mão na minha. Do silêncio da tua voz do outro lado de nenhum telefone.

Quando foi que o universo deixou de ser perfeito?
Talvez apenas um segundo. Ou apenas um pouco mais. Mas permanecemos no foco. Porque luz nenhuma se divide para a (sua) partilha. Existe única. Sempre. Com toda a (sua) intensidade. E por vezes fere. Outras vezes, sangra. Faz-nos golpe da própria luz. Invade todos os oceanos. E revela. Todos os lados abertos. Dessa tua porta fechada.

Sou tábua inerte de algum naufrágio.
A cada noite repetida sem lua.

Em que nenhuma água se agarra ao teu corpo.
E tu. Não te agarras ao meu.

 

sábado, fevereiro 03, 2024

DUELOS DE AMOR

Nos olhos parados damo-nos conta do silêncio.
São assim os momentos que antecedem todos os abandonos. Únicos. Ínfimas frações de tempo.

Os dedos trauteiam desejos na vénia de uma carícia lenta. Os cabelos enleiam-se no hálito. As respirações cruzadas captam o olhar que se fecha. - Pequenas rendições ao quente que espalhamos no ar que nos envolve.

Prendem-se os gestos ao desassossego que reina debaixo da nudez. E já somos nada em controlo. Nesse teu beijo que é o molde do meu. Nas bocas famintas que se molham. Que se bebem. Se procuram e se necessitam. Nelas arde esse fogo por dentro. Que inflama todas as lutas. No enrolar solitário das línguas no desejo.

Incendeiam-se os corpos numa paixão duplamente enfurecida. Na qual matamos o anseio numa quase raiva estonteada que nos atravessa. Confunde. Ficando sem saber se é a tua paixão enfurecida que se esvai no meu desejo, ou se é o teu desejo que enlouquece a minha fúria de paixão. Nelas somos sempre inteiros. Até nos raros momentos que em palavras rasgamos o silêncio. Dizendo-nos.

Silêncio e Tempo.
Entrega e (des)Ordem.

Duelos de Amor.

sábado, janeiro 27, 2024

ESPERA

A vida é tão pequena.

O vento viaja por todos os muros. O mar salga todas as praias. E a solidão é tão grande.

Vivo em permanência por trás desta porta à qual passos nenhuns teus se dirigem. Deito-me em escuridão nesta cama e penso palavras com os lábios. Pronunciam-te. De olhos fechados pergunto-me por onde vagueia a tua sombra. E tenho medo, sabes? Medo de te saber noutro lugar. Medo de te saber com outro alguém. Saber-te que não aqui, por tua vontade.

 

A vida é tão pequena.

O vento viaja por todos os muros. E a estrada está a ficar demasiado longa.

Tenho a casa vazia. Quero ir-me embora. Mas não me movo. Permaneço neste carrocel. Com medo que venhas e não me encontres. Me percas por um segundo de vida. Chegues e eu não esteja aqui. Onde as horas já são tantas. Onde me deito nesta escuridão. Os meus lábios pensam palavras que te pronunciam. O teu nome é uma palavra demasiado funda no meu corpo. E todos os teus beijos vão azedando, um por um, na minha boca.

 

Nenhum espelho aqui lembra já o teu reflexo.

 

Talvez te vá encontrar noutro lugar.

Talvez te vá encontrar com outro alguém.

E o teu silêncio vá ser maior que o mundo.

E apenas consigas dizer o meu nome com os teus dedos.

Quando tocarem a tua pele. Em todos aqueles pontos onde já não os meus.

(há tanto tempo que já não os meus)

 

E então, saberei.

sábado, janeiro 13, 2024

NEM TUDO ESTÁ DITO AINDA

Não. Nem tudo está dito ainda.
Há várias páginas em branco por preencher. Páginas desprendidas que a carne não escreve. Exaltação de fogo que nem os olhos, nem as mãos, nem a razão conseguem dissolver no meu tempo sem ti. Calor insatisfeito na sede de tudo e de coisa nenhuma. Que guardo num espaço que só se abre com a chave da tua boca. E com as metades de cada um de nós, faço um filho às palavras. E espero que cresça. Até à prosa selvagem. A correr à solta. Sob o olhar atento dos teus sentidos. Sem o toque dos meus.


Talvez as palavras que desassossegam as entrelinhas rasguem (todos) os verbos.
Talvez essa carícia que me afaga os sonhos seja precisamente o instante onde me esperas. Onde me fazes sentir que sabes o que sinto em mim. Num tempo sem medida. Onde me és. Como um dia inteiro que acontece num fim de tarde. Pois nunca a ausência dos teus lábios foi a forma de esquecer o que não foi pronunciado. Naquela tua voz. Onde sobra o desejo. À qual sempre chego a ti sem saber o que me acontece ao corpo. Que abre a janela e voa. Cai no chão e chora. Sangra e gosta. Ri do meu silêncio. Faz-me os gestos. Na fuga em que tudo volta. E me chama. Uma vez mais. A ti.

Não. Nem tudo está dito ainda.
Há várias páginas em branco por preencher.

Deixa a porta entreaberta. Apaga a luz.
E grita bem alto o meu nome. Em todos os teus silêncios.

sábado, janeiro 06, 2024

SONHO DE TE TER

Sinto-te permanentemente em mim.
Como chocolate quente que derrete sob o meu corpo e adquire as minhas formas, envolves-me. Ferves(-me). Despertas-me de uma forma única que não sei dizer. Não há como. Quero ser a tua pele. O sangue do teu pulsar. Ser parte de ti. Em prolongamento. Em necessidade. Renascer permanentemente no conforto dos teus lábios. E como uma seiva de ti, quero beber da tua boca todas as palavras que resgatas dos ecos interiores da tua pele. Em sussurros. E deixas espalhadas pelo meu corpo em murmúrios de língua. Depositadas nos poros adocicados de ti.

Com o brilho da ânsia no teu olhar, entro em ti como quem entra em casa.
As tuas pernas o abraço de boas-vindas e o teu peito o sorriso que olhando nos olhos me diz: o teu lugar é aqui! Ouço os sons do teu corpo em ecos dobrados de suspiros e murmúrios de querer-me. Esses que não consegues conter de todas as vezes que me perco em caminhos de ti. Em expedições de anseios e desejos cúmplices. Na densa procura de novos pulsares. No êxtase de um céu em chamas que te sussurro ao ouvido. Envoltos pela mistura de odores que de nós emana. Numa mistura única e nossa. Reinventada de cada vez que fazemos Amor.

Nesta força de existência, transporto nas minhas mãos pedaços da tua essência.
Nas palavras (cheias de ti) frases que me fazem fervilhar as veias. Numa perdição profunda que faz tremer a pele na simples ideia da tua.

E é neste espaço encravado entre o tempo que voa e aquele que pára.
Entre a eternidade e o instante que passa.
Que eu vivo. Intensamente.

O sonho de te ter.

sábado, dezembro 16, 2023

CAOS

Como sentir este momento?
Dedicaste a vida a produzir cor. De uma forma ávida distribuir beleza. E num repente partiste. E agora o universo inteiro parece uma tempestade infinita de beleza. Beleza em dor. Que nenhum sentido literário ou estético é capaz de dissimular. Sei que queres alegria e celebração. Queres vida a brotar pela ponta dos dedos. Queres alegria a jorrar pelos olhos. Mas eu. Eu nem sequer sei como sorrir agora. Os meus dedos estão fechados sobre as mãos. Não têm forma de produção. Os meus olhos estão fechados para qualquer cor. E tudo o que sinto é esta escuridão. Dentro. Funda. Que me absorve. Que me anula.

Como sentir este momento agora?
Que sentido fazem as palavras quando nem a elas se bastam. Impossíveis de entender. E este medo que cresce. Que não pára. Porque é noite. Porque foi o absurdo que tomou o lugar. E tudo então parou. E o amanhã parece um lugar demasiado distante. Por sem ti. E eu só procuro um sentido. Uma ponta de luz por dentro do peito. Cada vez mais cansado. Do teu não respirar.

Aporto o meu barco.
O universo inteiro é agora uma tempestade infinita de beleza.
E nele tu.
A estrela maior.

 

sábado, dezembro 09, 2023

TEMPO

Acordei com o sabor do teu nome na minha boca.
Voltei a fechar os olhos como querendo resgatar-te para luz e disse baixinho o teu nome. Como que a murmurar Amor ao teu ouvido. Mas tudo é agora longe e o tempo tem uma dimensão muito diferente. Porque é assim o tempo dos sonhos. E no entanto, também nele tu permaneces. Onde a intimidade é sempre outra. Onde os dedos se riem junto com a tua pele. E nela plantam raios de sol. Que a fazem brilhar. Como os teus olhos. Magnéticos. Dos quais todo o tempo passado longe é um desperdício de existência.

Acordei com o sabor do teu nome na minha boca.
E com a força com que um barco fende as águas de todos os mares, o meu corpo chama por ti. Em vontades. Desejo de continuidade. Profundo. Nestes encontros incontrolados és sempre Tu. Como uma inevitabilidade. Onde existimos a pedaços. Em descontínuo. Mas sempre em vontades. Contínuas. Sem tempo. Pois em todos os tempos tu existes. Em mim. Assim. Em Amor.


Quero-te em todos os tempos.
E o tempo contigo é sempre isso.
Medida. Em falta.

sábado, dezembro 02, 2023

FRIO

Estão já frias as páginas do livro que deixaste sobre a cama. Calor nenhum da tua pele repousa agora sobre elas. Nem partículas do teu olhar. Ou algum dos ímpetos com que o fechaste para me olhares. Bem dentro dos olhos. Fundo.
- Sempre me soubeste despir com o olhar.

Dizias que no meu peito batia um coração selvagem. E insistias para que eu o libertasse. Enquanto com as unhas me sulcavas na pele passagens para ele emergir. Caminhos de sentido único. Em jeito de lava. Como torrentes. Enquanto com o corpo chamavas pelo que dizias ser esse outro que habita em mim. Rebelde. Desregrado.

Mas eu sempre fui ser dominante. E cobri de gelo todas as fissuras. Selei todos os acessos. E fui sempre eu. Apenas eu. E por entre todos esses bloqueios, fomos acontecendo. Como seres únicos. Que nos reconhecíamos. Em pele. Em Toque. Odores. Existência.

O livro permanece sobre a cama.
Foram momentos únicos. Irrepetíveis. E na sua irrepetibilidade reside o conforto da familiaridade do porvir. Ainda que em surpresa. Sempre em surpresa. Para além de todas as letras. Sobre todos os espaços de silêncios. E de todas as palavras que ficaram por dizer.

Porque as palavras nem sempre são complemento.
E as aspas não nos dizem do texto completo.

sábado, novembro 25, 2023

NÃO ME PERGUNTES

 Não me perguntes de novo o que é a verdade.

Que te dizer mais senão que tudo dentro de mim chama por ti.
Que é nas entrelinhas dos nossos beijos que melhor me encontro sem palavras.
Que só me completo quando te ouço chamar pelo meu nome, onde já tudo és tu.
E que é quando me afagas a mão, em aperto, que mais me sinto teu.
Só Teu.

Amo-Te. E amar-te é reconhecer o excesso de todas as restantes coisas.
É reconhecer que os meus dias só começam com o teu “Bom dia”.
Que são as palavras que trocamos que conferem razão aos minutos.
E que o auge da minha existência ocorre quando os meus braços te envolvem o corpo.
Os teus olhos segredam aos meus a infinitude de todos os instantes.
E os teus lábios me repetem em silêncio, num beijo, que és minha.
Só Minha.


Por isso Meu Amor, não me perguntes.
Não me perguntes de novo o que é a verdade.

Porque impotente me reconheço,
como totalmente incapaz,
de te responder.

sábado, novembro 11, 2023

TODOS OS BEIJOS

Todos os beijos nascem no teu olhar.

São inconfidências de silêncios que os nossos olhos trocam e que os lábios não dizem, por não saberem soletrar sozinhos a palavra Amor. E no entanto sorriem. Sorriem porque guardam dentro de si o sabor de todos os beijos. De todos os encontros dos nossos mais profundos íntimos, que se soltam, nas carícias das línguas quando nas nossas bocas se amam.

E nas vezes em que a boca é incapaz de conter o beijo, em que ele explode para fora si mesmo, como quem quer mover todas as palavras num único instante para o íntimo da pele do outro, nessas vezes, o beijo transborda. Então, deposito os meus lábios naquela curva interior do teu pescoço, no ponto onde guardas os segredos dos teus arrepios e, suavemente, em bicos de esmalte, mordo-te a pele como quem diz Desejo.

E aquando das distâncias sem perdão, que impedem a permanência da chama que a tua língua provoca na minha. Que impedem o meu corpo de encontrar o teu. Que nos castram (todos) os nossos momentos pela ausência. Nessas, é sempre a memória do teu beijo que em mim persiste. Como luz. Sinal de existência. Farol de caminho.

Por isso eu beijo-te Meu Amor. E quero beijar-te sempre!
Em todas as imagens dos teus olhos. Em todas as palavras da tua boca. Em todos os gestos do teu corpo. Em Ternura. Em Calor. Em Húmido. Em Vontade. Em Profundidade. Em loucura.

Em tudo aquilo que seja capaz de te transmitir,
o quanto eu te Amo!

sábado, novembro 04, 2023

INTIMIDADE EM SUSPENSO

Sempre que vens ao meu encontro, trazes em ti um recato de Amor. Nunca vens o vulcão em que te tornas. Não. Vens sempre pé ante pé. Aos poucos. Como que com receio de acordar o lobo adormecido. Primeiro o olhar. Fugidio. Como que de soslaio. Seguido de umas poucas palavras. Os lábios que começam a arquear até ao sorriso. Para só mais tarde as mãos. Essas que igualam as minhas em dimensão. Em forma e em toque. Em pequenos encontros fugazes. De sensações.

São assim os regressos. Pequenos reencontros em que não nos sabemos. E vais tentando perceber de mim. Aos poucos. Em pequenos espasmos de curiosidades. Para garantires que sou o mesmo que deixaste. O que preenche as tuas memórias. As emoções guardadas. Em (sempre) pequenas caixas. Aquelas que usas para as coisas importantes. Em salvaguarda do turbilhão da vida.

Aos poucos, vais-te deixando amanhecer. Soltas a face. Vertes algumas palavras pelo meio do olhar. Esse, que resume todas as frases e todos os silêncios. E voltas ao reencontro dos lábios com que nos despedimos para a rarefação de ambos. E assim nos fazermos de novo unidade. (Re)descobrirmo-nos nas loucuras partilhadas. Nas gramáticas dos peitos ofegantes. Nas gotículas na pele. E nos detalhes dos corpos em tumulto.

Sempre que vens ao meu encontro, trazes em ti um recato de Amor.
Intimidade em suspenso que as mãos deixaram uma na outra.
Para um novo mergulhar que responda a todos os silêncios.

Aqueles que se fizeram.
Quando em solidão chamei por ti.
 

sábado, outubro 28, 2023

NÃO ME LEMBRO

Não me lembro das tuas últimas palavras de hoje. Aquelas que ficaram para trás de ti, antes de fechares a porta. Não me lembro. Não me lembro de nenhum som articulado senão da imagem dos teus lábios a dizê-las. Pelo espelho do quarto. Onde pouco antes partilháramos uma vez mais todos os silêncios. Aqueles. Que têm não mais que a espessura da tua pele. Sobre a qual dizias que todos os gestos aconteciam sempre pela primeira vez. Por mais repetidos que fossem.

Sempre pensámos que daríamos pelo mais pequeno engano. Alguma inflexão, uma vírgula a mais, ou algum querer novo que não encaixasse no que erámos. Mas no tempo fomos cedendo. Às fúrias. Às novas. Mas também às antigas. Impossíveis de conter nas barreiras de qualquer calendário. Aquelas que ficam guardadas nas traseiras da pele. Onde cada um de nós acontece sem que o outro saiba. Sem que por vezes, nós próprios o saibamos.

Nos invernos interiores os olhos andam mais pequenos. Semicerrados. Existimos em espaços exíguos. Sem amplitude que nos permita ver para além da chuva que risca todos os limites. E nada nos consegue aquecer como num qualquer início. Como no dia em que dissemos para sempre. E éramos verdade. Hoje dizemos até logo. E não somos certeza.

Não me lembro das tuas últimas palavras de hoje.
Apenas da imagem dos teus lábios a dizê-las pelo espelho do quarto.

Acho que não te voltarei a ver.
Ninguém regressa de tão longe dos lugares da memória.

sábado, outubro 21, 2023

ELEMENTOS

Vazio das tuas mãos, todo o tempo é um lugar inóspito.
Existes em mim em todos os momentos, mas somos feitos de distâncias que por vezes parecem intransponíveis. É então que somos como que um acto de fé. Pequenas ilhas. Absolutamente líquidas. Cuja base mais firme é a âncora de um barco à deriva. Feito eu.

Quero ser continente. Preso a ti sob a base do teu chão.
Que me sejas terra. Ar. A outra metade que sustenta as minhas insuficiências. Me assegura os caminhos e impede que me perca. Por não os teus dedos em mim. Agarrando-me e fazendo-me teu. Por não as tuas mãos em mim. Percorrendo-me e dizendo-te minha.

Quero ser fogo. Sempre. Percorrer o sabor da tua voz na magia dos sussurros. Dos descontrolos impossíveis. Em contínuo. Ter o teu pescoço como farol. Que me orienta para a tua boca. Para nela me perder numa medida que número nenhum é capaz de dizer. Infinito de paixão. No qual tudo cabe. Sem medida. Ou sequer escala.

Quero contigo ser, e não apenas existir.
Acompanhas-me?

sábado, outubro 07, 2023

A TUA AUSÊNCIA

Desculpa hoje não ter palavras.
Todas as mãos estão fechadas e todos os braços me apertam o corpo.
Não há horizonte para lá das minhas varandas interiores. Em escuro. Sou apenas sombra. Caminhos curtos. Becos. Minha voz perde-se nas minhas próprias paredes. Sem melodia ou sentido. E eu não me reconheço em nada. Em sítio nenhum. Sou pó. Sobras de outras línguas. Sílabas por dizer.

Hoje não tenho palavras. E dói-me.
Dói-me ser silêncio. Peso. Ausência de som. Que não sendo dito estrilha. Em rasgos. Pequenas lâminas de papel. De cortes finos, invisíveis. Porque assim me é a inexistência da tua presença. Paralisa-me. Não me permite. Aniquila-me e não me deixa ser eu. Pelo que tudo o que resta é apenas isto: o não eu. Que se confunde. Que me confunde. Me leva a questionar qual deles sou.

Não quero ser este ninguém. Que não conheço.
E no entanto, já vou conhecendo vezes demais.

A tua ausência dói-me.
Hoje, é tudo o que tenho para te dizer.


sábado, setembro 30, 2023

CASAMENTO

Trouxe-te pela mão até aqui, ao lugar de todos os sim.

E como quem olha a vida através dos teus olhos, digo-te todos os prometo.
Porque felicidade só se escreve com as letras do teu nome.
Porque tu estás na origem de todas as minhas palavras.
Porque és tu. Em tudo. Como coisa única. Sem partes.

Por isso agora diz-me.
Diz-me que o verão nunca é eterno. Diz-me que dias de inverno também virão. E que todas as estações passarão por nós mas tu, tu sempre estarás aqui comigo. Porto para a minha frágil embarcação emocional. Em querer. Em seguro. Em ficar.
Tu Sabes dos meus braços cansados. Sabes das minhas sombras. Sabes que por vezes preciso tanto delas como do sol. Sabes que elas são tanto eu como a luz.

Por isso Meu Amor, diz-me.
Diz-me não que ficarás, mas que te irás esforçar.
Diz-me não que seremos sempre nós, mas que irás lutar.
Diz-me não que a vida será sempre bela a teu lado, mas que no fim de todos os túneis tu estarás lá.
Diz-me.
Diz-me porque eu, eu já não me sei sem ti.

E o Amor,
esse,
já só se diz pela tua voz. 

sábado, setembro 23, 2023

NÃO PARTAS AINDA

Onde vais? Deixando-me aqui sozinho a soletrar carinhos com a ponta dos dedos. É cedo ainda. E as palavras que semeei na tua pele ainda não ganharam raízes. Não têm força de subsistência. Por isso não partas. Ainda. Não me deixes sozinho. Sob todo o silêncio. Espera que a luz das letras forme o dia. Deixa que as frases nasçam. Espera uns minutos mais só para que se desenvolvam. E quem sabe, formem um texto. Que te seja ternura. Ou quase ternura. E que te leve a ficar. Umas letras mais. Um verso. Uma estrofe. Ou na loucura até todo um poema.

Não partas ainda. Há todo um tempo vida que parou quando chegaste. E eu não mais envelheci pelo lado de dentro. Onde não sou a minha idade pele. Sou a idade completa dos teus sonhos. E se te vais, todos eles esmurecem. Dissipam. E a minha idade torna-se matéria obsoleta. E eu não quero ser só passado. Sem linha de horizonte de futuro. Sem o atrevimento de querer seguir. E apenas ficar. E fazer de toda a luz cantos escuros. E deixar que as palavras apodreçam desarticuladas na minha boca. Indizíveis. Por falta de destinatário.

Tu sabes que é o teu respirar sobre as letras que as alimentam.
Tu sabes que são as correntes quentes da tua voz que as aquecem.
Tu sabes que é a claridade dos teus olhos que as revelam.

Por isso não partas. Ainda.
Deixa-me tentar uma vez mais, escrever o meu nome no avesso da tua pele.

Onde estás agora?


sábado, setembro 16, 2023

DOEM OS DIAS

Sabes Pai, por vezes doem-me os dias.

É tremendo o peso que carrego sobre os ossos dos pés. E os dias doem. São pálpebras de pedra que batem contra todos os espelhos. Racham. Esmagam. Pela dor, chego a desejar o esquecimento. Deixar de ser eu frente a este mar imenso de nomes a que outros chamam vida. Não ser nem
memória. Ser apenas silêncio. Ou olhar. Por cima do ardor.

Doem-me tanto os dias às vezes Pai.
São toda uma devastação. São as feridas de todos que me rasgam a pele. Tudo sangra. Como espinhos numa garganta que canta. Canta a sua dor numa tentativa parva de purga. Porque a dor não se purga. A dor não se expele ou sequer se aniquila. A dor vive em nós. Em pequenas trevas. A dor somos nós. Em pequenas lâminas.

Doem-me tanto os dias Pai.
Na lembrança das coisas, vejo todas as despedidas. Todas as casas agora sombriamente vazias. Todos os abraços dissolvidos. Leitos desfeitos. Palavras caladas. Há frases inteiras para sempre gravadas no vento. E sinto. Tudo acaba. Tudo morre com o seu nome. Como flores que bebem as jarras. Como raízes que apodrecem a terra. Em silêncio.


Doem-me os dias Pai.
Numa dor que sou todo eu, ouço, vezes sem conta, o mesmo eco:
Porque continuo aqui? 

sábado, setembro 09, 2023

DUETO A SOLO

Caminho descalço sobre as palavras para não as ferir. Por entre o tempo que se derrama sobre as suas letras, por vezes, mora o medo. E como não sei onde fica o seu epicentro (fraturas expostas), de algumas guardo distância. Desconfortos de existência. Como se num carrossel as suas letras formem uma magnetização própria. Que me atrai em contínuo. Delas fujo. Não as uso. Em cobardia. Por não saber o que depois delas fica. Por não saber como ficas.

Há quem seja comum. Pouco acrescento. Mas não tu. Gosto de te ver chegar ao texto. Demorares-te nele. Ver os teus olhos navegarem pelas suas ondas. Os arqueios dos teus lábios a acompanhar a sua navegação. Os brilhos surgirem nos salpicos deixados pelos ventos amenos que te vão trespassando o peito. E depois da leitura, como quem beija na boca, olhares-me nos olhos. E com o seu silêncio dizeres-me que sou teu. Como quem fala Amor. E o diz numa canção.

Seremos sempre nós por entre as sílabas. Serás sempre embalo.
Condimento das frases. Música. Calor e lágrima. Corpo de texto.

Vagas de sentires.
Dueto a solo.

sábado, setembro 02, 2023

IMENSIDÕES

Nunca quis a profundidade do espaço. Nem toda a imensidão de desconhecido que ele encerra. Com toda a sua beleza e possibilidades, ele é-me apenas excesso. E eu quero-o em mínimo. Em nada. Se ele representa a distância de ti, quero-o ínfimo. Inexistente. Porque todo o espaço é silêncio. E eu transbordo todos os teus. Quero as tuas palavras a serem casa para os meus olhos. O teu olhar as minhas estrelas. E que sejam as tuas curvas a definirem as minhas fronteiras.

Dir-te-ia que te amava ainda antes de te conhecer. Amava a ideia de ti. Aquela a que vieste dar corpo. Mostrando-me o quanto te pensava em pouco. Aterradoramente incompleto. Por não te conhecer. Por te pensar para além de mim. Quando a tua existência é tão profundamente a minha. E sem a tua, ela é tão escassa. É possível eu existir sem ti? Os nossos caminhos nem sempre foram comuns. E ainda assim, os nossos passos foram-se sincronizando para chegarem a hoje.

Esquece o céu. A Lua. As estrelas.
Vamos ver o mar.

No mar tudo se une. Todas as existências se partilham. E nas ondas temo-nos. Em marés. Como vagas em movimento. Ora suaves. Ora em força. Mas sempre em movimento. Como que levando-nos. Como que sendo-nos. Deixa-te elevar pelas ondas. Deixa que o teu corpo flutue. Que seja maré. E que os meus braços te sejam rocha. Te firmem. Como fio vermelho que liga o fim a todos os inícios. Como ponte que une margem nenhuma. Como desculpa para a vida.

Acordamos juntos?